Diário de um bobo agora em nopvo endereço: http://diariodeumbobo.blogspot.com
 


L'amour; jamais l'amour

Chega a ser doentia a dificuldade que a maioria das pessoas têm para expressar e mesmo para receber amor. Se é que se pode dar amor, o que já é uma outra discussão.

É inacreditável como as pessoas não têm a menor dificuldade para expressar raiva ou contrariedade (geralmente sinais de defesa ou medo). Falam-se desaforos com uma facilidade inversamente proporcional àquela com que se falam palavras que expressem amor verdadeiro. Parece-me que as pessoas têm medo de ser amadas, como se receber os efeitos do amor (carinho, afeto, lealdade, etc.) as tornasse mais fracas ou devedoras de alguma reciprocidade.

Acabo de aprender que o amor é um sentimento individual, que devemos ter, no geral, por todas as criaturas e, de modo particular, por aquelas pessoas com quem escolhemos como companheiros de jornada. Não depende do outro; não depende de resposta: simplesmente é. E o que sentimos pelos outros pertence a nós. O que o outro fará em reação (ou acolhimento) não nos diz respeito nem influencia no que sentimos. Claro que sonha-se intensamente com a reciprocidade, mas ela não nos é devida, assim como não são devidas explicações para uma coisa ou outra.

Esse aprendizado me fez muito bem, pois mostrou que o maior beneficiário do amor é aquele que ama, pela energia que gera e da qual usufrui. Amar faz bem, nos dá expectativas, nos dá impulso para ir para a frente, para sermos cada vez mais sintonizados com o Universo e, por conseguinte, mais evoluídos. A pessoa que sente reciprocidade ganha com isso, tanto pelos efeitos maravilhosos que sermos amados nos permite experimentar quanto pelo nosso próprio exercício do amor. Isso, porém, não significa que a pessoa que não corresponde a esse amor esteja perdendo alguma coisa, pois ela haverá de buscar e encontrar essa mesma satisfação em outras coisas e pessoas. Amor acontece ou não.

Pode-se tudo nesta vida, mas rejeitar o amor por não ter coragem de lidar com ele ou de reconhecê-lo como tal é a pior das alternativas, porque nos adoece por dentro e, consequentemente, traz efeitos prejudiciais ao nosso corpo e à nossa alma. Duvidar dele também me parece estranho, na falta de outra palavra. Duvidar do amor do outro significa subestimar a si mesmo e ao outro. A si mesmo, porque denota que a pessoa não se sente merecedora dele; ao outro, porque quem não ama não tem justificativas para estar junto, ou seja, se uma pessoa não nos ama não há o que a faça permanecer conosco e assumir o necessário comprometimento em termos de respeito, lealdade, cumplicidade, afeto, companheirismo e dedicação em que tudo isso implica. Isso sem falar no desejo. Isso sem falar no autoengano, quando não assumimos nosso próprio amor pelo outro. A pior das mentiras é esta, pois não nos permite enxergar a situação e, portanto, encontrar soluções e formas de lidar com ela.

No conjunto desse aprendizado, veio também um grande conceito: só existem dois sentimentos; amor e ódio (e todas as suas consequências indiretas, como zelo, cumplicidade, medo e raiva, para citar apenas alguns). Ou se sente ou não se sente. Ou se ama ou não se ama. A grande pergunta é qual dos dois motiva nossos pensamentos e ações.



 Escrito por Kleber Patricio às 23h22
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(In) fidelidades

"Como diz José Antunes a propósito da consciência, ‘se viver fosse sinônimo de existir, nada seria problemático’. A verdade é que para alguns viver é muito mais do que existir e porque assim é, torna-se necessário questionar em que é que realmente acreditamos e se o que acreditamos ressoa ou não com a nossa essência. Como não me canso de afirmar, são as nossas relações amorosas (e o que com elas podemos experienciar) um dos melhores laboratórios que a vida encontra para nos ajudar no nosso processo de transformação e de ampliação da nossa consciência. Nelas existem ‘temas’ que precisam ser revistos, que precisam ser (re)avaliados para que a VERDADE do AMOR nos torne cada vez mais lúcidos e nos liberte das prisões relacionais onde parecemos tantas vezes cumprir perpétuas e pesadas penas. Um desses ‘temas’ é exatamente aquele que é tratado com grande hipocrisia – a (in)fidelidade.

Prometemos ser fiéis ao outro sem sequer perceber bem o que isso quer dizer para nós. Depois afirmamos que nunca perdoaremos ‘traições’ e que se o outro nos ama tem de nos ser ‘fiel’. Intrigada, pergunto-me o que terá o AMOR a ver com isto? O que terá o AMOR a ver com a posse? O que terá o AMOR a ver com exclusividades impostas?

Vivemos enrolados em mentiras, com medo de ‘trocar’ e de sermos ‘trocados’, não percebendo sequer que ninguém pode ‘trocar’ ninguém, porque cada um de nós é um ser único. Um Ser único, cujo principal compromisso deveria ser com a VERDADE e nunca com o outro. Quantos de nós são ‘fieis’ por dever e não por vocação? Quantos de nós ‘deslizam’, mentindo compulsivamente ao outro, não percebendo que é a si próprios que estão a mentir?

AMAR é simples. É antes de mais saber respeitar as nossas escolhas e as escolhas do outro. Sejam elas quais forem.

Mais do que nunca, a Terra precisa de AMOR e de PAZ e enquanto não nos libertarmos de crenças, de mentiras e de jogos, essa PAZ será longínqua e muito difícil de encontrar."

 

Cristina Leal em Encontros e Desencontros na relações amorosas



 Escrito por Kleber Patricio às 15h06
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Preconceito

Muitas coisas me irritam nesta vida, mas talvez aquela que mais me tira do sério é o preconceito. Talvez seja a coisa mais ridícula e sem sentido que o homem pode sentir, uma vez que não existem duas pessoas iguais. Então, qual a dificuldade de aceitar as diferenças, sejam elas quais forem? Mais ridículo ainda é gente que sofre preconceito ser preconceituosa. É o cúmulo da incoerência, falta de autoconhecimento (na maioria das vezes, também de autoestima) e, sejamos sinceros, da estupidez.  Lésbicas que não gostam de gays e vice-versa; ricos que desprezam pobres; negros que não gostam de gays e por aí vai.

Cada ser humano é único e tem direito a pensar, sentir e agir da forma que bem entender, desde que não caia no desrespeito ao direito dos outros nem interfira em seu espaço. Somos responsáveis pelos nossos pensamentos, mas não pelos nossos sentimentos, que são a manifestação da alma e que, encurtando a história, acabam sendo a motivação original das nossas ações.

É claro que existem formas médias de convívio, peculiares em cada cultura, mas ninguém deveria ser obrigado a segui-las. Para isto, existe a Lei. O resto é ignorância e intolerância.



 Escrito por Kleber Patricio às 03h21
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Vida louca vida

Recebi há duas semanas um convite que está causando muito questionamento da minha parte; primeiro, porque sempre tive uma visão muito negativa da forma como se pratica política no Brasil; segundo, porque nunca, em nenhum momento, imaginei que um convite desse tipo me pudesse ser feito, até porque minha posição com relação à política sempre foi pública e notória. Mas devo dizer que a forma como o convite foi feito acabou me deixando lisonjeado e instigado.

Fui convidado a ser candidato a vereador nas próximas eleições. Sempre imaginei que convites no segmento político fossem invariavelmente cercados de negociações (quando não negociatas) e condições. Mas o convite foi feito de forma muito elegante, por uma pessoa muito consistente politicamente e, para minha surpresa, não me foi pedido (sequer insinuado) que deixasse, por um segundo que fosse, de ser a pessoa que sempre fui ou que mudasse de algum modo minha forma de pensar e de agir. E há também um fator importante: a pessoa que me convidou sabe perfeitamente do meu modo franco e aberto de dizer o que penso e sinto e, além de não enxergar isso como um obstáculo, demonstrou entender esse jeito como algo positivo e, mais do que isso, necessário no cenário político indaiatubano.

Confesso que fiquei no mínimo curioso com relação a essa possível experiência. Sempre me comuniquei com a população de forma aberta e abrangente, invariavelmente por intermédio dos meios de comunicação, onde atuo já há mais de 22 anos. Seria uma experiência interessante me comunicar com a população de forma direta, olhando nos olhos dos cidadãos, como faço com os amigos, como bem sabe quem me conhece mais de perto. Da mesma forma, sempre prestei assistência a pessoas necessitadas de forma voluntária, sem precisar recorrer ao Poder Público. Mas um grande amigo, um verdadeiro companheiro de jornada, vem dizendo há tempos que com um mandato conferido pelo povo eu teria mais e maiores ferramentas para exercer atividades em benefício da cidade, que tanto amo e que escolhi como meu lar. Um dos maiores motivos de orgulho que tenho na vida foi a outorga pela Câmara Municipal, ou seja, pelos representantes desse povo acolhedor e progressista, do título de Cidadão Indaiatubano, que escrevo em letras maiúsculas porque são superlativas a honra e a responsabilidade com que recebi esta homenagem.

Agora estou dividido entre minha forma histórica de pensar e as múltiplas possibilidades que o Universo me apresenta neste momento. Não me importaria vencer ou não; só a experiência de conhecer de muito mais perto os problemas e carências da nossa população já valeria a pena. A única coisa inegociável é que buscaria exercer um eventual mandato com dignidade, de maneira consistente e de forma a contribuir para a solução desses problemas e carências.

Por isso, estou tornando público esse convite, até para que meus amigos e aqueles que me querem bem possam me dar um feedback e me ajudar nessa decisão, como é meu hábito fazer antes de tomar qualquer atitude de grande importância na minha vida e na de outras pessoas. Ouço tudo, aceito todas as opiniões e no final decido conforme minha consciência e meu coração.

Obrigado àqueles que tiverem o carinho de ler estas palavras e contribuir de alguma forma para a minha tomada de decisão.



 Escrito por Kleber Patricio às 13h34
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A crise da meia idade

Quanto mais passa o tempo, mais vai se consolidando em mim a visão de que viver é administrar crises, uma após a outra. Primeiro, a insegurança da infância, a construção das estruturas sobre as quais se erigirá o ser. Depois, na adolescência, mais insegurança, com a consciência de que o pouco que se sabe não é nada (mas, sendo o que temos então, a este pouco nos agarramos com o afinco e a soberba que as infinitas possibilidades à nossa frente nos outorgam) e de que o muito que não se sabe forma um panorama ainda mais assustador. Depois, para os que tomam este rumo, vêm o casamento e a procriação, com as incertezas sobre o futuro da relação e dos filhos que acabaram de colocar no planeta. Após esta, vem a crise da partida dos filhos e o reencontro com o outro após o período em que a vida de cada um girou em torno dos papéis predefinidos de pai e mãe. Geralmente isso ocorre por volta dos 40 e, se as diferenças que se criaram no período forem solucionadas, vem o desafio de construir uma nova relação; se não, vem a dolorosa separação e o abandono de todo um projeto que um dia se acreditou ser perfeito e eterno.

Aí é que, como dizem, "a porca torce o rabo". Mais uma vez nos vemos de mãos vazias e de novo experimentamos a insegurança de não possuir uma fórmula. Neste momento, a maior busca que o ser humano pode realizar é por si mesmo; a pergunta mais importante a ser feita é: Quem eu sou? O patrimônio de quatro décadas de vida vivida, de ações tomadas, de convicções assumidas e de investimentos materiais e emocionais cristalizados, é posto em dúvida. Já temos uma história para avaliar e percebemos, separando o joio do trigo, que não podemos mais vivenciar a vida por inércia, continuando a agir como sempre. É hora de ter a coragem de avaliar quais das nossas características realmente representam quem somos e quais foram criadas pelo ego apenas para possibilitar uma vida com o menor atrito possível, ainda que medíocre e sem sentido. Para piorar as coisas, vem a consciência de que o tempo, a mercadoria mais valiosa da vida, já não é mais algo que possamos nos dar ao luxo de desperdiçar, já que, matematicamente falando, estamos iniciando a contagem regressiva para o inevitável final (se vive-se em média de 80 a 90 anos, aos 40 ou 45 é iniciada a contagem decrescente). Vem daí uma premência, uma urgência, uma necessidade de evitar erros que em algumas pessoas chega a causar desorientação.

Mas, como tudo na vida tem um lado bom (esta fase tem dois), o conjunto dos nossos acertos, a consolidação daquelas características que realmente reconhecemos como nossas acaba representando um patrimônio considerável e sendo o combustível com que iniciamos esta nova caminhada. Repito: o combustível com que iniciamos a nova caminhada, uma vez que o restante da energia necessária deverá ser conquistado por intermédio do processo de construção desta nova pessoa que está surgindo. Neste momento, sucumbem os fracos, os que não conseguem encontrar dentro de si a coragem necessária para efetivamente colocar o dedo no próprio nariz e perguntar a si mesmo: Este realmente é você? Você realmente acredita no que está fazendo? Esta ação representa verdadeiramente seus anseios mais profundos? Aí, a coragem que foi necessária para a reavaliação profunda precisa ser aumentada para se tomar as atitudes que se deve para destruir o ego e agir conforme a verdade. Esta coragem não é para qualquer um —não é exatamente fácil chegar para si mesmo e para o mundo e dizer: Eu fui errado até agora ou Estou mudando radicalmente porque até hoje fui equivocado (ou, às vezes, dizer: Eu fui babaca).

Este recomeço acaba sendo complicado um pouco mais por vários fatores —para começar, podemos citar o fato de que, tendo vivido uma relação estável até então, normalmente acabamos esquecendo as minúcias da arte do flerte. Tendo estado fora do 'mercado' por período considerável, nossa linguagem muitas vezes se mostra ultrapassada. Outro fator: nessas quase duas décadas vividas ao largo das paixões, nossa linguagem acaba tornando-se ultrapassada, nossa forma de amar e expressar nossos sentimentos acaba se mostrando anacrônica e, no limite, ridícula e fora do contexto. Ou seja, precisamos reaprender a nos comunicar com um mundo cuja evolução não esperou por nós. Indo em direção ao paroxismo, se nossa autoavaliação não tiver sido ampla, geral e irrestrita, tenderemos a buscar como parceiros pessoas muito mais jovens, num sinal de que nossa forma de procurar ainda segue os padrões que usávamos na época em que nos apartamos de nós mesmos e começamos a privilegiar nossa relação com o núcleo familiar em detrimento de nossas relações com o resto do mundo. Aí, passa-se a buscar o outro num mercado cheio de pessoas fisicamente mais fortes, psicologicamente mais seguras (porque estão no momento que é delas, o das múltiplas possibilidades) e operacionalmente mais eficientes. Um verdadeiro inferno.

Para piorar ainda mais, é geralmente o momento em que nosso universo começa a exibir os efeitos da passagem do tempo: os pais estão chegando ao epílogo de sua existência e começamos a ver nossos amigos e familiares pagando as primeiras faturas resultantes de sua forma de viver.

Mas o outro lado bom é que, em que pesem nossas deficiências, nossa insegurança e nossas limitações, a experiência adquirida anteriormente acaba representando uma vantagem com relação aos mais jovens e teoricamente mais preparados: se não sabemos o que fazer, a esta altura já sabemos, pelo menos, o que não fazer; já possuímos respostas para as quais a 'concorrência' ainda nem conhece a pergunta.

Encurtando um pouco a história, o resumo da ópera é que não há receita para a vida. Crise após crise, o que está em desafio a todo momento é nosso realismo para conosco próprios; é jamais deixar de perguntar a si mesmo, antes de cada atitude importante, se nossa decisão está em consonância como nosso coração, a única verdade sólida e inquestionável. É saber distinguir, a cada passo, se nosso rumo está sendo ditado pelo comodismo e tibieza do desprezível ego ou se, de fato, está sendo ditado pela nossa certeza quanto à direção a ser seguida. Mente e coração só funcionam em conjunto; nunca dará bons resultados qualquer ação em que a mente esteja olhando para um lado e o coração, para outro. Não somos culpados por aquilo que sentimos —se culpa deve haver, ela existe apenas com relação àquilo que pensamos e à forma como agimos. Com esta verdade nas mãos, o futuro que se vislumbra, seja em que momento ou qual crise for, será necessariamente brilhante e inevitavelmente satisfatório, porque real. 



 Escrito por Kleber Patricio às 18h21
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A 'venezuelização' do Brasil

Antes de mais nada, quero deixar claro que considero o governo Lula, em que pesem os mensaleiros e o aparelhamento do Estado, para mencionar apenas dois de seus problemas, um governo razoável. Assim, respeito a popularidade presidencial e me submeto ao axioma Vox populi, vox Dei. Ocorre que Dilma não é Lula. Não possui nem de longe um mínimo da liderança incontestável exercida pelo presidente, além de não possuir nem migalhas de seu carisma.

O presidente de um país é, antes de mais nada, o líder supremo da nação. É aquela pessoa que, mais que uma administradora competente e com visão de estadista, funciona como uma catalisadora das vontades e das necessidades de seu povo; é, antes de tudo, um exemplo. Não vejo nenhuma dessas qualidades na candidata Dilma Rousseff e, dada sua personalidade autoritária manifestada ao longo de seu desempenho como ministra-chefe da Casa Civil, me preocupa muito o fato de que o Congresso recém-eleito seja majoritariamente composto de aliados, com larga vantagem que testará suas convicções democráticas. Caso essas convicções não sejam arraigadas e intransigentes na defesa dos valores democráticos, o próximo dia 1º de novembro acabará se tornando o primeiro dia do processo de 'venezuelização' do Brasil.

José Serra é um dos raros políticos de carreira brasileiros contra quem não existem evidências de enriquecimento inexplicável ou ilícito; é uma pessoa que fala as mesmas coisas, os mesmos princípios desde sempre. Tenho respeito por ele desde o governo Montoro, quando, guardião dos cofres, fechou as torneiras para os políticos irresponsáveis e iniciou, provavelmente sem saber, um processo nacional de conscientização sobre itens essenciais como responsabilidade fiscal e austeridade. Me decepcionei com ele nesta campanha presidencial, em que atitudes mesquinhas e factóides acabaram marcando mais a campanha que suas coerentes e consistentes ideias. Mas ainda assim, tenho mais respeito por ele, que não deixou de ser ranzinza, não ficou bonito de repente (o que, diga-se, seria bastante difícil, mesmo com os milagres da medicina estética atual) e não mudou suas opiniões. Também não acho que, caso ele seja eleito, a maioria oposicionista venha a ser assim tão intransigente, mesmo porque grande parte dela estará concentrada no PMDB, cuja maleabilidade já deu fartos exemplos de que não seria tão difícil alguma espécie de composição.

Enfim, aguardemos mais três dias para saber que Brasil teremos daqui para a frente.



 Escrito por Kleber Patricio às 16h29
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De volta!

Depois de um longo e tenebroso hiato de um ano e oito meses, acho que estou de volta. Durante este período e alguns meses que o antecederam, não imaginava o porquê de postar textos neste blog quando disponho do outro (http://kleberpatricio.blogspot.com), onde posso expressar minhas opiniões com muito mais abrangência, já que o número de leitores do Blogger é muito maior. Mas me ocorreu que as diferenças entre os perfis dos dois blogs me permite fazer neste comentários muito mais pessoais, já que no outro a preocupação em prestar um serviço aos leiores é a prioridade. Ou seja, este Diário de Um Bobo passa a ser o canal para veiculação das minhas opiniões mais pessoais. Espero que me perdoem a ausência e muito obrigado pela leitura.

Um grande abraço a todos.



 Escrito por Kleber Patricio às 16h07
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Crise?

Acho o fim da picada um país precisando tanto de trabalho, em meio a uma das maiores crises financeiras da história, parar por dois meses simplesmente em função do carnaval. O Brasil está em ritmo de marcha lenta desde o dia 19 de dezembro —ruas cheias, mas lojas e restaurantes vazios; orçamentos a torto e a direito, mas pouquíssimos fechamentos de negócios, salvo em um ou outro setor.

É inacreditável. Perceba-se como no ano passado, com o carnaval no começo de fevereiro, o ano começou mais cedo e foi muito mais produtivo. Fala-se tanto em crise, mas a energia desperdiçada nestes dois últimos meses bem poderia ter sido utilizada com trabalho e busca por alternativas —e crise nenhuma resiste ao trabalho.



 Escrito por Kleber Patricio às 15h48
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Kafka

Acho inacreditável as pessoas atacarem o atual governo pelas enchentes recentes nos bairros de sempre. Este é o único governo que não poderia ser criticado, pois foi o que teve a oportunidade e a vontade política para, com a ajuda do significativo trabalho de articulação política desenvolvido em Brasília pelo então deputado Reinaldo Nogueira, efetivamente solucionar o problema. Tem que esperar mais um pouco; paciência e pronto.  

Cai fora, Deodora!

Mais do que a tal da crise, o que me preocupa é a propagação dos efeitos dela pelas pessoas como se eles já tivessem acontecido e como se não tivessem solução. As mais inteligentes cabeças do mundo estão sendo acionadas para elaborar uma solução definitiva (tudo bem que tanta inteligência não foi capaz de evitá-la, mas tudo bem); não é possível que tanta energia e tanto dinheiro (há que se considerar também a derrama de dinheiro na economia por Estados Unidos e Europa) dê em nada. Só que se as pessoas anteciparem o caos e pararem de consumir, começa um ciclo vicioso de resultados imprevisíves. Não é o caso de se ignorar o cenário, mas de centralizar as forças no trabalho como melhor solução possível para algo desse tipo. Trabalho, trabalho, trabalho. Nunca ninguém se deu mal trabalhando. Ócio pode ser produtivo, mas choradeira, não.  

Por um Natal mais alegre

A Federação das Entidades Assistenciais de Indaiatuba (FEAI) está promovendo uma campanha de arrecadação de brinquedos para distribuição às entidades afiliadas no Natal deste ano. São aceitos brinquedos novos e semi-novos em bom estado; os postos de arrecadação são Casa da Esfiha, Eva Maria Bijoux, Fruity Sorvetes, Ivonete Modas, Loja Packer's, Padaria Suíça, Quitanda da Tica, Raphael Magazine, Sapataria São Vicente, Shopping Jaraguá Indaiatuba, Stalden Chocolates, Suzzara Calçados, Toca da Turma Recreação Infantil e Tropical Center.  

Informação já!

Nossa cidade é tão linda, tem lugares tão encantadores, praças e parques tão bonitos; é tão triste ver as pessoas emporcalhando esses locais com sua incivilidade. Me choca ver lixo ser jogado a menos de um metro de uma lixeira, o que é que é isso, minha gente? Acreditando que ninguém age errado por maldade pura, só posso crer que com muita informação, com cartazes, mutirões, etc., se pode mudar esse quadro. Mas pelo amor dos deuses, que se faça algo.



 Escrito por Kleber Patricio às 13h38
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O tempo não pára
Não consigo deixar de me assustar com o crescimento acelerado de Indaiatuba. Os semáforos, o trânsito, a violência, os rostos anônimos em maioria, o ritmo das pessoas: as dores de um parto que traz a contrapartida de uma economia forte, muitas opções de comércio e de lazer (espetáculos decentes acontecendo com freqüência), uma cidade cada vez mais bonita.
 
Tela preta
Que falta faz uma TV local. Ao contrário dos grandes centros, onde o horário eleitoral é pouquíssimo assistido, nas cidades menores os programas dos candidatos possuem uma audiência muito maior, pois as pessoas assistem até para poder ver rostos conhecidos e torcer por eles —ou rir deles.
Esta eleição está chata. Meia dúzia de carros de som, um monte de panfletos jogados nas casas e nas ruas e o povo, apático como nunca vi antes.
 
Como tinha que ser
As Olimpíadas de Beijing terminaram como deveriam, ou seja, com o Brasil entre os mais fracos. Poderia ser diferente? Sem investimentos em esportes, sem política esportiva de longo prazo, com a esbórnia que é a administração dos grandes clubes e associações esportivas —só por milagre. Ainda bem que temos um ou outro atleta ou equipe cujos méritos próprios nos permitiram sair ao menos com uns caraminguás. Só não entendo o ufanismo, a expectativa de que pudesse ser diferente e, consequentemente, a frustração.
 
Obama patinando?
O improvável parece estar acontecendo, a se crer nas pesquisas publicadas esta semana indicando que o candidato republicano John McCain teria passado em cinco pontos o democrata Barack Obama, que recentemente foi recebido mundo afora como presidente eleito e não como candidato, tamanha a euforia quanto a sua vitória e a improbabilidade de turbulências desse tipo. Assisti a um programa ontem em que se traçava um panorama do impacto do preconceito racial na campanha de Obama; aparentemente, cerca de 20% do eleitorado acima de 40 anos não votaria nele por ser negro. Durma-se com esse barulho, vindo da nação mais poderosa e teoricamente mais avançada do planeta.


 Escrito por Kleber Patricio às 16h39
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Treinamento já!
Me lembro de que uma das coisas que me chamaram a atenção em uma viagem ao Uruguai foi o serviço em bares e restaurantes. Não que fossem todos lordes, mas a dignidade com que garçons, bartenders, etc. exercem seu ofício lá não é vista com freqüência aqui —onde oscilamos entre um atendimento irritantemente amador e frequentemente servil ou o serviço esnobe e egocêntrico comum em lugares mais sofisticados.
É lamentável como no Brasil, principalmente em cidades menores, o trabalho de garçom e vendedor é visto como 'bico'. Vivemos um ciclo vicioso nesse segmento, com empregadores pagando pouco por serviços em que justificadamente não enxergam valor e empregados fazendo o mínimo possível até encontrar outro emprego que pague 5% a mais e por aí o ciclo se alimenta.
No caso de vendas, vendedores —principalmente na área de captação— mal-treinados vivem à cata de um fixo —a tal 'ajuda de custo'—, que geralmente é pífio, e complementam a renda com outro bico; ou seja, os patrões fingem que pagam e os vendedores fingem que trabalham. Até conseguir aqueles conseguirem um trabalho que efetivamente enxerguem como promissor.
Não posso crer que isso se deva a preconceito. A análise que mais me parece correta é a de que, na falta de treinamento, o valor de mercado do trabalho cai e a rotatividade se sustenta.
 
Salão Nacional de Humor Sobre Órgãos
A ONG GABRIEL (Grupo de Atuação Brasileiro para Realização de Transplantes Infantis e Estudos do Tubo Neural - www.gabriel.org.br), a Editora Virgo e o Estúdio EMT abriu ontem o 1º Salão Nacional de Humor sobre Doação de Órgãos no Casarão Cultural Pau Preto. Durante o evento estão sendo apresentados os trabalhos selecionados e premiados nas categorias cartum, charge, caricatura e história em quadrinhos.
 
Sedação
O acesso à informação, quantitativamente falando, parece estar anestesiando as pessoas. Trocam-se diariamente trilhões de emails com todo tipo de informação; lê-se sobre tudo em qualquer lugar, mas aparentemente ninguém se posiciona de fato quanto a nada —a menos que encaminhar um email já seja tomada de posição suficiente—, ninguém age conforme uma opinião formada. Todo mundo finge ter opinião sobre tudo —"Odeio a exploração do trabalho praticada na China!", mas continua comprando produtos chineses, frutos dessa exploração, se eles forem mais baratos (e sempre são). A incoerência não é crime, graças, mas a distância entre palavras e atos parece aumentar a cada dia para a média das pessoas.
 
Obscurantismo
A campanha eleitoral deste ano está de bocejar —não fosse o aspecto trágico desse marasmo, já que, sem emissora de TV local, só estão aparecendo os candidatos com maior poder de fogo (leia-se 'dinheiro'). Tudo a pretexto de uma truculência disfarçada de defesa da 'competição de mercado'. Bah.
Por outro lado, o nível médio dos candidatos parece ter melhorado, mas isso também pode ser reflexo do fato de que os menos respaldados financeiramente estão aparecendo menos.


 Escrito por Kleber Patricio às 09h11
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Saudações soteropolitanas
Escrevo sob um restolho do entusiasmo com que cheguei de umas pequenas férias em Salvador. Não visitava a cidade há dezenove anos e fiquei bestificado com a beleza e com o astral, talvez porque todas as vezes anteriores estive lá a trabalho. Pela primeira vez pude receber de coração aberto a hospitalidade e a leveza de espírito dos baianos; nunca antes havia podido observar com a atenção e o respeito devidos sua beleza arquitetônica; jamais havia tido tempo suficiente para mergulhar sem pressa no verde claro daquele mar e observar o pôr-do-sol no Porto da Barra, um dos poucos lugares brasileiros onde o sol se põe no mar já que nossa costa é, na maior parte, voltada para o leste. Nem mesmo a agressiva pobreza, tão prolífera em suas vítimas, consegue se sobrepor a tamanha beleza e tanto alto astral (a visão diária de uma mulher em avançada gravidez dormindo sob uma marquise, no meu caminho para a praia, me entristeceu com a minha gente por vários dias depois da volta; afinal, há algo escandalosamente errado com uma sociedade que permite que algo assim se repita por um dia sequer). Chega a ser poético que pessoas submetidas o tempo todo a tanta privação, a tanto sofrimento, possam sequer sorrir entre si.
Me embriaguei com o batuque do Olodum numa das ladeiras do Pelourinho, onde o passado se enfia pelos nossos sentidos como se o tempo fosse um mero detalhe; me deliciei com o acarajé da Dinha —algo puramente semântico, já que a legendária quituteira havia falecido naquela mesma semana—, no Largo de Santana, mesmo que tenha tido que esperar longos 20 minutos na fila (ainda bem que a gente fica imune ao mau humor naquela terra); pensei e repensei minha vida inteira nas caminhadas diárias que fiz do Porto da Barra até a praia de Ondina, na altura do mesmo Othon Palace onde ficava antes de ter amigos lá —e onde encontrei três vezes, nessas coincidências da vida, com o farmacêutico Marcio Mazzi, meu amigo há 20 anos, desde quando chegou em Indaiatuba.
Ironicamente, não tirei uma só foto.
 
Centro de Convenções "Aydil Pinesi Bonachela"
Há coisas que só mesmo com o tempo se pode entender. Nunca havia perdido uma amiga tão próxima e ao mesmo tempo tão célebre, por isso não entendia por quê as pessoas se orgulhavam tanto de ter parentes com nome de rua e, por outro lado, por quê a questão era tratada com tão pouca seriedade na maioria das cidades. Pois não só já estava começando a me perguntar quando iriam ser feitas as devidas (mas nunca suficientes) homenagens à querida Aydil como senti um conforto enorme no peito quando soube que uma obra pública com o pioneirismo e o vulto do novo (e primeiro) centro de convenções da cidade receberia o nome da radialista mais querida e combativa da história da cidade.


 Escrito por Kleber Patricio às 11h03
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A Pequena Imprensa
Conceitualmente, a imprensa localizada nas pequenas cidades parece ser democrática e auto-regulada. Não sei o que se passa nos outros países, mas o fato é que no Brasil há algo de muito errado com ela. Em vez de uma imprensa próxima da população, atuante de maneira imediata e presente nos fatos de interesse da comunidade, praticante de preços de publicidade justos e correspondentes à realidade do mercado, o que se vê é uma miríade de pequenos órgãos, a maioria sem foco, identidade ou proposta editorial, sobrevivendo à custa de press-releases das agências de notícias e assessorias de imprensa, sem trabalho investigativo e sempre atendendo de forma escandalosamente prioritária aos interesses dos anunciantes, disputando a tapa e muitas vezes de forma desleal um mercado saturado e sufocado pelo assédio constante dos departamentos comerciais, ávidos por financiar a continuidade das publicações. O interesse para o leitor, quando há, é incidental. É o preço que se paga pela liberdade, agravado pela falta de critério, responsabilidade e perspectiva de algumas pessoas que, à falta de outras formas de se sustentar, apelam para um jornalismo que, mais que ao dicionário, afronta a memória de gente como Claudio Abramo e outros de semelhante estatura. Isso só vai ser solucionado quando os anunciantes começarem a se pautar menos por preços e condições de pagamento e mais por conteúdo e linha editorial. É inevitável que, com o crescimento acelerado da cidade e com o distanciamento pessoal entre anunciantes e veículos de comunicação, o poder de sedução dos vendedores acabe se curvando a critérios como qualidade e credibilidade.
 
Maio Musical
Mantidos a abrangência e o padrão de qualidade do Maio Musical, só hoje me ocorreu como faz falta um certo ar de celebração que havia à época das primeiras edições, como se a cidade fosse contagiada por um clima de música, algo como a sensação que  tem do astral de Viena todo mundo que conheço que esteve lá. Talvez, dado o crescimento e fragmentação da população da cidade, fosse o momento de se pensar o festival de maneira um pouco mais publicitária, com referências visuais (painéis, oudoors, banners e outras mídias) que, interligadas, talvez enriquecessem o conjunto da obra e inserissem ainda mais o Maio Musical no inconsciente das pessoas.
 
Dia das Mães
Acho uma sacanagem enorme esse negócio de Dia das Mães, Dia dos Pais, dia não sei do quê. A pessoa fica numa sinuca de bico se não tem dinheiro para presentear a mãe nesse dia - isso na melhor das hipóteses, já que pior ainda é ser dolorosamente lembrado anualmente àqueles que não mais as têm a falta que elas fazem, com a obrigatória melancolia de assistir aos que as têem recebendo delas o carinho que tanta falta faz. Melhor não seria se todos tratassem suas mães com todo respeito, dignidade e consideração, presenteando-as sempre que cruzassem com algo que soubessem que as faria feliz e, claro, tendo dinheiro para isso?


 Escrito por Kleber Patricio às 12h04
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Exploração infantil póstuma
Não consigo imaginar outro nome para a cobertura indecente que os meios de comunicação fizeram da morte da pequena Isabella, aparentemente atirada pela janela por aquele pai louco e facínora. Agora pouco, ouvindo à distância o noticiário da casa ao lado, que parecia durar horas, ouvi um infeliz de um repórter dizendo que a seguir ouviríamos uma singela homenagem que 'a querida Ana, mãe de Isabella' faria em função da passagem da data do aniversário da filha. Incrível a cara-de-pau. Fez como se fosse realmente íntimo e solidário com o sofrimento da mãe, quando na verdade nunca na vida vi uma exploração tão barata de uma história tão triste e tão reveladora da baixeza que caracteriza a natureza humana. Os sentimentos mais primários e perturbadores da maiorida das pessoas foram manipulados ao extremo por manchetes melodramáticas e sentimentais. Em nenhum momento li ou ouvi uma conversa séria e esclarecedora. O jornalismo no Brasil parece que de vez em quando dá uns bons passos para trás.
 
Sampa
São Paulo simplesmente não dá mais. Estive lá esta semana para almoçar com um grande amigo e, apesar da amenidade do passeio e da sorte de não ter tido que encarar nenhum congestionamento recorde, cheguei em casa no final da tarde completamente exaurido. Só aquele barulho torturante de carros, buzinas e o diabo, para nós que nos habituamos ao canto dos passarinhos, já é de enlouquecer. Fora a estranheza que causa andar pelas ruas em meio a um monte de gente e não conhecer ninguém, ninguém notar ninguém, todo mundo quase totalmente anestesiado. Tudo é comprido, tudo é mão-de-obra, tudo é complicado e tudo, absolutamente tudo, se atrasa. No caminho de volta, Indaiatuba parece que não chega nunca. A sensação de alívio e acolhimento só chega mesmo no cruzamento das rodovias Bandeirantes e Santos Dumont. Aí é só alegria e uma sensação de ter sobrevivido à guerra.
 
Dengue
Éramos mesmo felizes e não sabíamos. Ainda esta semana eu pensava como era bom que Indaiatuba tivesse resolvido o problema da dengue. Era mesmo estranho que, com esse tempo louco, com chuvas fora de hora (neve em Paris na primavera!) e as pessoas tão pouco disciplinadas, estivéssemos ainda virgens da epidemia que assola o país e devasta o Rio de Janeiro. O mais preocupante é que pessoas a gente ensina; o que fazer com o monte de terrenos abandonados que nem se sabe estarem assim? Resta torcer os dedos para que, primeiro, as autoridades façam seu papel e, segundo, a sorte nos acompanhe como vinha acompanhando até agora.


 Escrito por Kleber Patricio às 17h32
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The Queen

Reproduzo aqui um texto que enviei a pedido para o portal Mais Indaiá (www.maisindaia.com.br).

Conheci a Aydil há 20 anos, quando entrei de sócio na escola de línguas que ficava em frente à casa dela. Tinha muito carinho pelo marido dela, o Ciso (Tarcísio era o nome dele), e ele por mim. Acho que de alguma forma esse carinho acabou contagiando a Aydil e estabelecemos uma relação muito terna e sempre divertida.
Você me pede memórias e começarei com aquela que me é mais cara. Falávamos com freqüência ao telefone nos anos 90 e eu costumava brincar com ela ligando do telefone sem fio e, enquanto conversávamos, eu atravessava a rua e tocava a campainha da casa dela. Ela me dizia atarantada que tinha que atender à porta e, quando via que era eu, caindo na gargalhada, gritava "Ah, é você?! Bandido!!" e me dava um tapinha.
No começo da nossa amizade ela dizia sempre, muitas vezes no ar, que eu era 'o homem mais lindo de Indaiatuba', posto em que acabei perdendo a exclusividade com o passar dos anos. O que nunca perdi foi o título de 'Metido!' que ela usava para me provocar em todos os eventos que promovi e que ela honrou com sua presença.
Um dia, minha afilhada Sílvia Bolívar me perguntou que diabos eu havia feito para a Aydil que ela queria ouvir falar no capeta, mas não queria ouvir meu nome. Respondi sinceramente que não sabia e assim ficamos quatro ou cinco anos sem nos falarmos. Uma noite, na casa do nosso amigo comum Gelson Toledo, ela me disse, como se nada tivesse acontecido, "Faz tempo que não faço um almoço pra você, né, Kleber? Vou fazer um logo e vou te chamar." Assim retomamos nossa amizade sem que um jamais tivesse dito ao outro qualquer palavra atravessada, qualquer desaforo. E o fato é que nunca soube, se é que um dia saberei, o motivo da mágoa. Acredito, pela coincidência de períodos, que devia ter algo a ver com o fato de eu ter assumido a Assessoria de Comunicação Social do governo Flávio Tonin, ainda que não me conste que ela tivesse qualquer desapreço específico e incontornável por ele.
Sempre tive por ela um respeito imenso, tanto pela pessoa verdadeira e corajosa que ela sempre foi, quanto pela seqüência de perdas trágicas que ela teve ao longo da vida, começando com o derrame que acometeu o marido pouco tempo depois do casamento, culminando com a morte da filha Andréa e seguida, sem muito intervalo, da perda da irmã Maria Ignês. A dignidade com que ela enfrentou essas perdas, que teriam prostrado de maneira irreversível muita gente, me emocionava. Ela costumava dizer que, com a morte da filha, haviam secado suas lágrimas e ela havia perdido a capacidade de chorar. Não acredito; acredito muito mais que se tratava de uma estratégia inconsciente de sobrevivência - um dos tantos calos que nossa alma vai criando para que consigamos suportar nossas dores e viver apesar delas. Senão, ela não teria a sensibilidade de, vendo-se sem razões para viver, passar a fazê-lo em função dos que mais necessitam. Minha amiga Barbara Fantelli me tocou muito com um questionamento, hoje: "A quem os pobres vão recorrer agora?"
Profissionalmente, era uma pioneira. Me deliciei sempre com os relatos que ela fazia sobre a forma como era o colunismo na época em que ela exercia o ofício de colunista da Tribuna, não sei quanto séculos atrás. "Era completamente diferente. Como imprimir fotos era muito caro, fazíamos verdadeiros relatórios dos eventos, explicando em detalhes como eram as roupas das pessoas, por exemplo." Depois, com seu ingresso no rádio, passou a ser a verdadeira voz do povo, bradando com sua voz indignada contra tudo o que era feito de maneira contrária aos interesses da população, tantas vezes em seu nome. Claro que muitas vezes errou em suas posições, mas jamais as tomou de maneira calculista ou em interesse próprio. Era uma leoa, 'pero sin perder la ternura jamás', ao ponto de me mandar num dos momentos mais dolorosos da minha vida uma caçarola italiana feita como todo carinho por ela, que sabia ser uma das minhas sobremesas favoritas.
Chamava-a de 'The Queen', em alusão ao fato de ela ser a Rainha do nosso rádio. Ela sempre aceitou com orgulho a alcunha. Então, adeus, Alteza. Fico feliz de ter a certeza de que você está feliz agora, ao lado daqueles cuja falta tanto sentiu. Muito obrigado por ter feito parte da minha vida e por ter sido um exemplo tão grande. Parabéns por sua história tão linda.


 Escrito por Kleber Patricio às 09h18
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