Mamie
Ela havia vindo de Santa Barbara d'Oeste, onde seu pai ganhara terras do imperador no período em que se iniciou o processo de profissionalização da agricultura brasileira. Havia sido casada com um engenheiro do governo norte-americano —naquela época, a política externa do governo americano previa uma presença marcante nos países sul-americanos e isso se dava por meio da construção de pontes, hospitais, etc., sendo Edward um dos seus próceres no nosso continente. Ela falava dele de uma forma estranhamente apaixonada; era como se ele não tivesse morrido há tanto tempo.
Nos conhecemos de maneira absolutamente fortuita —nossa faxineira, que era a mesma, nos apresentou. Dizia que ela vivia muito sozinha naquela bela casa na rua Sete de Setembro; toda vez que eu passava por ali a caminho da academia, cumprimentava-a dizendo "Good morning!", que ela respondia sorrindo e com um lento aceno de mão. Um dia, ela pediu a dona Nair que me dissesse que, se um dia eu decidisse dar a ela o prazer de uma visita, ela me receberia para um chá. E assim começou um compromisso que tive semanalmente por vários anos.
Naquela época ela ainda cozinhava, apesar da coluna muito curvada por um bico de papagaio. Me recebia com deliciosos biscuits, um tipo de pão que os americanos consomem com bastante freqüência, muffins, brownies, tortas maravilhosas, geléias inacreditáveis e chá Twinings —de quatro frutas vermelhas.
Falávamos apenas em inglês, já que o português dela, além de hesitante, era bastante ruim. Dr. Provenza me contou que um dia ela chegou no consultório dele e disse que havia arrumado um namorado, que falava inglês com ela e que a levava para passear. Tudo porque algumas poucas vezes peguei o Dodge Dart de um amigo meu (em cujo porta-malas cabia a cadeira de rodas) e a levei para conhecer o shopping, que havia acabado de ser inaugurado, e dar uma olhada nas tantas mudanças por que Indaiatuba tinha passado desde que ela se isolara do convívio com muitas outras pessoas. As pessoas com quem ela tinha mais contato eram sua enfermeira Olga (e a filha dela, Daniele, que moravam com ela) e as sobrinhas, seus parentes vivos mais próximos. Todos os seus amigos haviam falecido; todas as pessoas de sua geração ou das gerações imediatamente posteriores, com quem ela poderia ter alguma empatia ou algo em comum.
Ela tinha já mais de cem anos (apesar de, inacreditavelmente, esconder alguns) e contava histórias maravilhosas de suas andanças pelo mundo acompanhando o marido em suas missões. Havia vivido na Guatemala, no Marrocos e em vários outros lugares igualmente exóticos, trazendo consigo lembranças vívidas de momentos de fato inesquecíveis. Eu, por volta dos 27, me refestelava com essas histórias, que sorvia enquanto pedia mais e mais detalhes e impressões.
Um dia, tive a idéia de promover um encontro dela com a avó de uma amiga, Mary Frances, uma inglesa que hoje tem 107 anos, por enxergar ali uma possibilidade de amizade. Nos reunimos três ou quatro vezes, já que é sempre um problema deslocar alguém com idade tão avançada, mas, estranhamente, não aconteceu a empatia que eu esperava, ainda que elas sem dúvida nutrissem carinho uma pela outra e respeito por suas histórias, igualmente ricas e belas. Tive ali a impressão de numa certa altura da vida, acabamos estabelecendo com nosso passado uma relação estranha, como se o conjunto de nossas experiências formasse uma pessoa, que nos basta como companhia. Afinal, quando todos se vão, elas são o que resta.
Um dia, quando entrei na casa, havia duas malas lindas, de couro, inglesas, na sala. Ela me disse que haviam pertencido ao seu amado Edward e que ela tinha absoluta certeza de que, de onde estivesse, ele ficaria feliz que elas fossem minhas. Emocionado, aceitei.
Não muito tempo depois, ela faleceu. Já não nos víamos há algum tempo, em função da aceleração de uma senilidade que acabou fazendo com que ela não me reconhecesse mais. Pragmatismo, fraqueza ou egoísmo, o fato é que não consegui suportar o sorriso nos olhos dela, vindo do coração, acompanhando a pergunta "Who are you?".
Desde então, essas malas me acompanham em todas as minhas andanças pelo mundo. Viajar é o que mais gosto na vida e cada novo olhar que deito sobre um novo lugar passa, de uma forma ou de outra, pelos olhos dela. Aprendi com ela a observar nos povos a riqueza de cada pessoa, a identificar no conjunto a somatória das características e sentimentos de cada indivíduo. Acho que isso abre as portas para muitas outras formas de ver o mesmo mundo. Me sinto um escolhido por ter tido o privilégio de, dando tão pouco, ter recebido tanto amor e tanto conhecimento de vida.
Escrito por Kleber Patricio às 10h35
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