Diário de um bobo


Porque escrevo

Uma vez, há quase quinze anos, Erika Hayashi me perguntou se eu não me incomodava com o fato de que muitas vezes o carinho das pessoas não fosse sincero, mas fruto de interesse pelo fato de eu ser colunista. Respondi que preferia acreditar que, havendo ou não essa possibilidade, fosse sincero, mesmo porque não haveria muito o que fazer. Mas confesso que a dúvida nunca foi devidamente resolvida e acho mesmo que talvez nunca venha a ser. Mas é o preço que se paga quando se faz escolhas na vida e eu acho que esse preço nem é tão alto assim.

Em algum grau, todo e qualquer relacionamento é movido por interesse. O desafio é conseguir que o interesse nunca se sobreponha às reais qualidade que possamos ter. Para isso, é preciso se abrir, dar sempre o que se tem de melhor, para que o o outro sinta-se agradecido por, em não tendo sido bitolado, ter acabado conhecendo características positivas ainda superiores aos objetivos que inicialmente possam tê-lo movido. Nada se tem a perder com isso. Ao contrário, cresce-se e, dadas as obrigações da coerência, acaba-se adquirindo, pelo hábito, a prática de coisas edificantes, para usar um termo caro ao nosso alcaide, e que promovem a vida e o progresso, para usar um termo caro ao meu amigo Ige D'Aquino (o 'progresso' é acréscimo meu).

Me sinto privilegiado por ter a oportunidade de compartilhar com aqueles que enxergam algum sentido no que eu escrevo as minhas opiniões mais honestas acerca de todos os assuntos. Se eu puder acrescentar algo à forma de pensar de alguém, já terá valido minha existência. Não me empolga deixar um legado material, que pode ser dividido até um ponto subatômico e na prática desaparecer; prefiro deixar idéias, que estas não morrem. Por isso, tento manter a disciplina de informar, em primeiro lugar, ainda que o assunto não seja do meu interesse particular. Em segundo lugar, não acredito em imparcialidade total; ou melhor, acredito que seja algo muito raro. Por isso, prefiro seguir os conselhos de certa ministra e relaxar e levantar, sim, a bola daqueles que, além de fazer algo minimamente notável, possuem a minha simpatia e concordância. O que me obrigo a me submeter são argumentos, desde que sejam coerentes. Acredito que há sempre três lados numa história: o meu, o do outro e o isento.

Mas voltando ao assunto principal, adoro poder compartilhar minhas idéias e sentimentos, adoro pessoas e a possibilidade de ressaltar suas qualidades e particularidades e acho apaixonante às vezes poder mostrar a pessoas queridas características suas que, ao meu olhar, são seu charme e encanto. E chega de aluguel.



Escrito por Kleber Patricio às 23h55
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Acesso, pero no mucho

Democracia sentimental fede. Mas infelizmente não dá para crescer sem contar com as trombadas, sem abrir o coração para os outros e colher os frutos dos embates entre nossos sentimentos e expectativas e os dos outros. Mesmo assim é ..., well, me faltam palavras, digamos, educadas para descrever.
Abrir o coração é um ato de muita coragem. Significa que você bota, sim, fé no seu taco e, chorando ou não, dando show ou não, rindo ou não, no final acaba dando conta do recado e saindo da história toda uma pessoa um bocadinho melhor. Triste é ver gente bonita, saudável, forte e inteligente vendo a vida simplesmente passar, se encantando com sentimentos e histórias que não são suas por pura falta de coragem. Assistindo à distância a flashes de vidas que poderiam ter sido delas. O que há de se perguntar é uma coisa só: se o preço vale a pena. Porque preço sempre haverá. Incompreensível, para mim, é haver gente que se disponha a pagar o preço da monotonia, da submissão aos fatos cotidianos, e afinal não experimentar o novo, o desconhecido, a surpresa. Mas pagou do mesmo jeito!
Também é um ato de coragem partir para o abraço, reconhecendo as reais expectativas que nos movem. Tudo na vida é motivação e mais uma vez cai-se na questão do preço. Quanto custa para se chegar onde se quer? O quê, afinal, se quer? É incrível a falta de clareza da maioria das pessoas.
Arre, esse teatro está ficando insuportável.



Escrito por Kleber Patricio às 23h55
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