Diário de um bobo


Feudos
É triste viver em um país onde a consciência da cidadania simplesmente não existe. Me causa nojo assistir a gente incompetente ser alçada a cargos públicos e se enxergarem donas deles —no caso de gente eleita, ainda dá para tentar se conformar, mas os muitíssimo mais numerosos casos dos apaniguados é de amargar. Gente que não cumpre horário, gente que não zela pelo que é de todos —muito pelo contrário, no Brasil 'coisa pública' é sinônimo de 'coisa de ninguém', quando em lugares onde vive gente que se respeita o sinônimo é 'coisa de todos'. Gente capaz de interromper um ofício no exato minuto em que o relógio bate 5 da tarde, porque 'não ganha pra isso' (já vi uma máquina de escrever sendo fechada com o ofício dentro). Gente incapaz de enxergar o interesse público se ele não estiver em algum grau associado a seus próprios interesses.
É até natural que seja assim. Afinal, se uma pessoa conquista uma posição no mercado de trabalho por seus próprios méritos, ostenta sua dignidade em sua capacidade de levar o empregador a atingir os objetivos propostos. No caso de indicações para cargos de confiança (de quem??) ou mesmo no de tantos 'concursos' que se vê por aí, o infeliz sabe que não teria estatura para estar ali; com isso, submete sua dignidade ao sabor daquele que o nomeou (na seqüência, dos próprios interesses) e daí está dado o primeiro passo para uma corrupção de caráter que via de regra deforma a personalidade como um todo. Argh.
Estas pessoas não devem pensar que um dia tudo isso acaba.
 
Cartões corporativos
Na contra-mão da moda, vou defender aqui a instituição dos famigerados cartões corporativos do governo federal. É um assunto que vem sendo tratado com base na antipatia (atual) da mídia para com Lula e o PT (merecida?), não na lucidez com que deveria.
Trata-se de um avanço. É mais transparente e diminui a prática nefasta —ainda em vigor em muito mais larga escala— do uso de cheques, posteriormente justificados com notas mais frias que pé de pingüim. O que tem que fazer é, primeiro, diminuir a quantidade —os cerca de 7 mil existentes são um despautério. É gente demais com dinheiro fácil na mão. Segundo, permitir apenas aos dirigentes maiores dos órgãos (e portanto, mais responsabilizáveis) o acesso a saques em dinheiro. E terceiro, claro, fiscalizar.
O que não pode é jogar na vala uma iniciativa louvável e positiva porque muitos daqueles que deveriam executá-la não estão à altura de serem chamados de homens.


Escrito por Kleber Patricio às 07h32
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