Diário de um bobo


Pedição
Por alguma razão misteriosa, sinto uma culpa abissal diante do abandono ou a cada vez que fico sabendo que alguém sentiu dificuldades e não pôde contar com qualquer espécie de ajuda ou solidariedade. Graças a isso, não consigo recusar ajuda. Durante um certo tempo, tentei ajudar financeiramente tantas entidades filantrópicas quanto pudesse, mas a culpa aumentou em função daqueles a quem eu não podia por pura limitação financeira. Decidi radicalizar e hoje não ajudo mais nenhuma entidade com dinheiro; quando me pedem ajuda, ofereço meu trabalho com assessoria de imprensa, meus contatos, corro atrás dos amigos para ampliar essa ajuda. Acho inclusive muito melhor, porque meu trabalho pode ajudar as entidades a ganharem mais dinheiro e ajuda do que qualquer R$50 que eu pudesse dar.
Mas é incrível a falta de expediente de algumas entidades. Tem gente que acha que ajudar os outros é se pendurar ao telefone e pedir dinheiro às pessoas que atendem. Existem duas ou três que me ligam bimestralmente, apesar de eu repetir todas as vezes a cantilena acima. O que faço agora? Desligo. Não é possível essa conversa de surdos: a pessoa liga, você oferece uma ajuda muito maior que a solicitada e a pessoa desliga se derretendo em agradecimentos, mas liga de novo no mês seguinte pedindo dinheiro! Isso tira a credibilidade de todo um belo tabalho que pode vir a estar sendo desenvolvido, porque fica a aparência de que as pessoas só querem dinheiro. E ainda fica o mau gosto de descaracterizar a caridade, confundindo-a com esmola.
 
Calçadão do desrespeito
Luto há tempos uma cruzada quixotesca pelo respeito ao direito dos pedestres, já que as calçadas em Indaiatuba parecem terra de ninguém. Como não sou personagem de Cervantes, desanimo. A coisa em vez de melhorar, só piora. Esta semana um restaurante decente, de bom nível, instalou mesas na calçada, deixando para os pedestres algo em torno de 50 cm para passar. Dá impressão de desrespeito, de falta de foco (é restaurante ou choperia?), de falta de carinho para com aqueles que não são clientes. E invade um princípio básico: se as ruas são para os carros e as calçadas para as mesas e cadeiras, as pessoas vão andar aonde??? Civilidade, senhores, civilidade.
 
Políticas hipócritas
É ridículo como algumas pessoas, falando em defender seus direitos, podem invadir os dos outros com a mesma firmeza. Comecei a fumar há 32 anos, numa época em que quem não fumava era quadrado, praticamente um nerd. A propaganda glamourizava, o governo era parceiro, permitindo a publicidade e ganhando rios de dinheiros em impostos. Enquanto isso, as empresas, sem qualquer fiscalização nesse sentido, manipulavam fumos e substâncias químicas de modo a manter essa legião de manobrados como seus escravos perpétuos, com resultados que a Justiça norte-americana não apenas atestou serem devastadores quanto propositais (uma vez que distribuiu indenizações a torto e a direito).
Hoje em dia, descobre-se que o fumo é mortal e que as pessoas precisam parar de fumar. E de uma hora para outra os fumantes passam a ser responsabilizados por fumarem, como se alguém fosse obrigado a ser herói e conseguir eliminar um vício diligentemente alimentado por tantos anos com ajuda de tanta gente. Proíbe-se de fumar aqui e acolá, mas não se indica aos coitados onde se pode, afinal, fumar. Olha-se torto para os fumantes, como se fossem coitadinhos, burros e suicidas. Ah, dá licença e olha o rabo no espelho. Sou fumante e exijo respeito.


Escrito por Kleber Patricio às 09h48
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