Diário de um bobo


The Queen

Reproduzo aqui um texto que enviei a pedido para o portal Mais Indaiá (www.maisindaia.com.br).

Conheci a Aydil há 20 anos, quando entrei de sócio na escola de línguas que ficava em frente à casa dela. Tinha muito carinho pelo marido dela, o Ciso (Tarcísio era o nome dele), e ele por mim. Acho que de alguma forma esse carinho acabou contagiando a Aydil e estabelecemos uma relação muito terna e sempre divertida.
Você me pede memórias e começarei com aquela que me é mais cara. Falávamos com freqüência ao telefone nos anos 90 e eu costumava brincar com ela ligando do telefone sem fio e, enquanto conversávamos, eu atravessava a rua e tocava a campainha da casa dela. Ela me dizia atarantada que tinha que atender à porta e, quando via que era eu, caindo na gargalhada, gritava "Ah, é você?! Bandido!!" e me dava um tapinha.
No começo da nossa amizade ela dizia sempre, muitas vezes no ar, que eu era 'o homem mais lindo de Indaiatuba', posto em que acabei perdendo a exclusividade com o passar dos anos. O que nunca perdi foi o título de 'Metido!' que ela usava para me provocar em todos os eventos que promovi e que ela honrou com sua presença.
Um dia, minha afilhada Sílvia Bolívar me perguntou que diabos eu havia feito para a Aydil que ela queria ouvir falar no capeta, mas não queria ouvir meu nome. Respondi sinceramente que não sabia e assim ficamos quatro ou cinco anos sem nos falarmos. Uma noite, na casa do nosso amigo comum Gelson Toledo, ela me disse, como se nada tivesse acontecido, "Faz tempo que não faço um almoço pra você, né, Kleber? Vou fazer um logo e vou te chamar." Assim retomamos nossa amizade sem que um jamais tivesse dito ao outro qualquer palavra atravessada, qualquer desaforo. E o fato é que nunca soube, se é que um dia saberei, o motivo da mágoa. Acredito, pela coincidência de períodos, que devia ter algo a ver com o fato de eu ter assumido a Assessoria de Comunicação Social do governo Flávio Tonin, ainda que não me conste que ela tivesse qualquer desapreço específico e incontornável por ele.
Sempre tive por ela um respeito imenso, tanto pela pessoa verdadeira e corajosa que ela sempre foi, quanto pela seqüência de perdas trágicas que ela teve ao longo da vida, começando com o derrame que acometeu o marido pouco tempo depois do casamento, culminando com a morte da filha Andréa e seguida, sem muito intervalo, da perda da irmã Maria Ignês. A dignidade com que ela enfrentou essas perdas, que teriam prostrado de maneira irreversível muita gente, me emocionava. Ela costumava dizer que, com a morte da filha, haviam secado suas lágrimas e ela havia perdido a capacidade de chorar. Não acredito; acredito muito mais que se tratava de uma estratégia inconsciente de sobrevivência - um dos tantos calos que nossa alma vai criando para que consigamos suportar nossas dores e viver apesar delas. Senão, ela não teria a sensibilidade de, vendo-se sem razões para viver, passar a fazê-lo em função dos que mais necessitam. Minha amiga Barbara Fantelli me tocou muito com um questionamento, hoje: "A quem os pobres vão recorrer agora?"
Profissionalmente, era uma pioneira. Me deliciei sempre com os relatos que ela fazia sobre a forma como era o colunismo na época em que ela exercia o ofício de colunista da Tribuna, não sei quanto séculos atrás. "Era completamente diferente. Como imprimir fotos era muito caro, fazíamos verdadeiros relatórios dos eventos, explicando em detalhes como eram as roupas das pessoas, por exemplo." Depois, com seu ingresso no rádio, passou a ser a verdadeira voz do povo, bradando com sua voz indignada contra tudo o que era feito de maneira contrária aos interesses da população, tantas vezes em seu nome. Claro que muitas vezes errou em suas posições, mas jamais as tomou de maneira calculista ou em interesse próprio. Era uma leoa, 'pero sin perder la ternura jamás', ao ponto de me mandar num dos momentos mais dolorosos da minha vida uma caçarola italiana feita como todo carinho por ela, que sabia ser uma das minhas sobremesas favoritas.
Chamava-a de 'The Queen', em alusão ao fato de ela ser a Rainha do nosso rádio. Ela sempre aceitou com orgulho a alcunha. Então, adeus, Alteza. Fico feliz de ter a certeza de que você está feliz agora, ao lado daqueles cuja falta tanto sentiu. Muito obrigado por ter feito parte da minha vida e por ter sido um exemplo tão grande. Parabéns por sua história tão linda.


Escrito por Kleber Patricio às 09h18
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