Exploração infantil póstuma
Não consigo imaginar outro nome para a cobertura indecente que os meios de comunicação fizeram da morte da pequena Isabella, aparentemente atirada pela janela por aquele pai louco e facínora. Agora pouco, ouvindo à distância o noticiário da casa ao lado, que parecia durar horas, ouvi um infeliz de um repórter dizendo que a seguir ouviríamos uma singela homenagem que 'a querida Ana, mãe de Isabella' faria em função da passagem da data do aniversário da filha. Incrível a cara-de-pau. Fez como se fosse realmente íntimo e solidário com o sofrimento da mãe, quando na verdade nunca na vida vi uma exploração tão barata de uma história tão triste e tão reveladora da baixeza que caracteriza a natureza humana. Os sentimentos mais primários e perturbadores da maiorida das pessoas foram manipulados ao extremo por manchetes melodramáticas e sentimentais. Em nenhum momento li ou ouvi uma conversa séria e esclarecedora. O jornalismo no Brasil parece que de vez em quando dá uns bons passos para trás.
Sampa
São Paulo simplesmente não dá mais. Estive lá esta semana para almoçar com um grande amigo e, apesar da amenidade do passeio e da sorte de não ter tido que encarar nenhum congestionamento recorde, cheguei em casa no final da tarde completamente exaurido. Só aquele barulho torturante de carros, buzinas e o diabo, para nós que nos habituamos ao canto dos passarinhos, já é de enlouquecer. Fora a estranheza que causa andar pelas ruas em meio a um monte de gente e não conhecer ninguém, ninguém notar ninguém, todo mundo quase totalmente anestesiado. Tudo é comprido, tudo é mão-de-obra, tudo é complicado e tudo, absolutamente tudo, se atrasa. No caminho de volta, Indaiatuba parece que não chega nunca. A sensação de alívio e acolhimento só chega mesmo no cruzamento das rodovias Bandeirantes e Santos Dumont. Aí é só alegria e uma sensação de ter sobrevivido à guerra.
Dengue
Éramos mesmo felizes e não sabíamos. Ainda esta semana eu pensava como era bom que Indaiatuba tivesse resolvido o problema da dengue. Era mesmo estranho que, com esse tempo louco, com chuvas fora de hora (neve em Paris na primavera!) e as pessoas tão pouco disciplinadas, estivéssemos ainda virgens da epidemia que assola o país e devasta o Rio de Janeiro. O mais preocupante é que pessoas a gente ensina; o que fazer com o monte de terrenos abandonados que nem se sabe estarem assim? Resta torcer os dedos para que, primeiro, as autoridades façam seu papel e, segundo, a sorte nos acompanhe como vinha acompanhando até agora.
Escrito por Kleber Patricio às 17h32
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