Saudações soteropolitanas
Escrevo sob um restolho do entusiasmo com que cheguei de umas pequenas férias em Salvador. Não visitava a cidade há dezenove anos e fiquei bestificado com a beleza e com o astral, talvez porque todas as vezes anteriores estive lá a trabalho. Pela primeira vez pude receber de coração aberto a hospitalidade e a leveza de espírito dos baianos; nunca antes havia podido observar com a atenção e o respeito devidos sua beleza arquitetônica; jamais havia tido tempo suficiente para mergulhar sem pressa no verde claro daquele mar e observar o pôr-do-sol no Porto da Barra, um dos poucos lugares brasileiros onde o sol se põe no mar já que nossa costa é, na maior parte, voltada para o leste. Nem mesmo a agressiva pobreza, tão prolífera em suas vítimas, consegue se sobrepor a tamanha beleza e tanto alto astral (a visão diária de uma mulher em avançada gravidez dormindo sob uma marquise, no meu caminho para a praia, me entristeceu com a minha gente por vários dias depois da volta; afinal, há algo escandalosamente errado com uma sociedade que permite que algo assim se repita por um dia sequer). Chega a ser poético que pessoas submetidas o tempo todo a tanta privação, a tanto sofrimento, possam sequer sorrir entre si.
Me embriaguei com o batuque do Olodum numa das ladeiras do Pelourinho, onde o passado se enfia pelos nossos sentidos como se o tempo fosse um mero detalhe; me deliciei com o acarajé da Dinha —algo puramente semântico, já que a legendária quituteira havia falecido naquela mesma semana—, no Largo de Santana, mesmo que tenha tido que esperar longos 20 minutos na fila (ainda bem que a gente fica imune ao mau humor naquela terra); pensei e repensei minha vida inteira nas caminhadas diárias que fiz do Porto da Barra até a praia de Ondina, na altura do mesmo Othon Palace onde ficava antes de ter amigos lá —e onde encontrei três vezes, nessas coincidências da vida, com o farmacêutico Marcio Mazzi, meu amigo há 20 anos, desde quando chegou em Indaiatuba.
Ironicamente, não tirei uma só foto.
Centro de Convenções "Aydil Pinesi Bonachela"
Há coisas que só mesmo com o tempo se pode entender. Nunca havia perdido uma amiga tão próxima e ao mesmo tempo tão célebre, por isso não entendia por quê as pessoas se orgulhavam tanto de ter parentes com nome de rua e, por outro lado, por quê a questão era tratada com tão pouca seriedade na maioria das cidades. Pois não só já estava começando a me perguntar quando iriam ser feitas as devidas (mas nunca suficientes) homenagens à querida Aydil como senti um conforto enorme no peito quando soube que uma obra pública com o pioneirismo e o vulto do novo (e primeiro) centro de convenções da cidade receberia o nome da radialista mais querida e combativa da história da cidade.
Escrito por Kleber Patricio às 11h03
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