Diário de um bobo


Crise?

Acho o fim da picada um país precisando tanto de trabalho, em meio a uma das maiores crises financeiras da história, parar por dois meses simplesmente em função do carnaval. O Brasil está em ritmo de marcha lenta desde o dia 19 de dezembro —ruas cheias, mas lojas e restaurantes vazios; orçamentos a torto e a direito, mas pouquíssimos fechamentos de negócios, salvo em um ou outro setor.

É inacreditável. Perceba-se como no ano passado, com o carnaval no começo de fevereiro, o ano começou mais cedo e foi muito mais produtivo. Fala-se tanto em crise, mas a energia desperdiçada nestes dois últimos meses bem poderia ter sido utilizada com trabalho e busca por alternativas —e crise nenhuma resiste ao trabalho.



Escrito por Kleber Patricio às 15h48
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Kafka

Acho inacreditável as pessoas atacarem o atual governo pelas enchentes recentes nos bairros de sempre. Este é o único governo que não poderia ser criticado, pois foi o que teve a oportunidade e a vontade política para, com a ajuda do significativo trabalho de articulação política desenvolvido em Brasília pelo então deputado Reinaldo Nogueira, efetivamente solucionar o problema. Tem que esperar mais um pouco; paciência e pronto.  

Cai fora, Deodora!

Mais do que a tal da crise, o que me preocupa é a propagação dos efeitos dela pelas pessoas como se eles já tivessem acontecido e como se não tivessem solução. As mais inteligentes cabeças do mundo estão sendo acionadas para elaborar uma solução definitiva (tudo bem que tanta inteligência não foi capaz de evitá-la, mas tudo bem); não é possível que tanta energia e tanto dinheiro (há que se considerar também a derrama de dinheiro na economia por Estados Unidos e Europa) dê em nada. Só que se as pessoas anteciparem o caos e pararem de consumir, começa um ciclo vicioso de resultados imprevisíves. Não é o caso de se ignorar o cenário, mas de centralizar as forças no trabalho como melhor solução possível para algo desse tipo. Trabalho, trabalho, trabalho. Nunca ninguém se deu mal trabalhando. Ócio pode ser produtivo, mas choradeira, não.  

Por um Natal mais alegre

A Federação das Entidades Assistenciais de Indaiatuba (FEAI) está promovendo uma campanha de arrecadação de brinquedos para distribuição às entidades afiliadas no Natal deste ano. São aceitos brinquedos novos e semi-novos em bom estado; os postos de arrecadação são Casa da Esfiha, Eva Maria Bijoux, Fruity Sorvetes, Ivonete Modas, Loja Packer's, Padaria Suíça, Quitanda da Tica, Raphael Magazine, Sapataria São Vicente, Shopping Jaraguá Indaiatuba, Stalden Chocolates, Suzzara Calçados, Toca da Turma Recreação Infantil e Tropical Center.  

Informação já!

Nossa cidade é tão linda, tem lugares tão encantadores, praças e parques tão bonitos; é tão triste ver as pessoas emporcalhando esses locais com sua incivilidade. Me choca ver lixo ser jogado a menos de um metro de uma lixeira, o que é que é isso, minha gente? Acreditando que ninguém age errado por maldade pura, só posso crer que com muita informação, com cartazes, mutirões, etc., se pode mudar esse quadro. Mas pelo amor dos deuses, que se faça algo.



Escrito por Kleber Patricio às 13h38
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




O tempo não pára
Não consigo deixar de me assustar com o crescimento acelerado de Indaiatuba. Os semáforos, o trânsito, a violência, os rostos anônimos em maioria, o ritmo das pessoas: as dores de um parto que traz a contrapartida de uma economia forte, muitas opções de comércio e de lazer (espetáculos decentes acontecendo com freqüência), uma cidade cada vez mais bonita.
 
Tela preta
Que falta faz uma TV local. Ao contrário dos grandes centros, onde o horário eleitoral é pouquíssimo assistido, nas cidades menores os programas dos candidatos possuem uma audiência muito maior, pois as pessoas assistem até para poder ver rostos conhecidos e torcer por eles —ou rir deles.
Esta eleição está chata. Meia dúzia de carros de som, um monte de panfletos jogados nas casas e nas ruas e o povo, apático como nunca vi antes.
 
Como tinha que ser
As Olimpíadas de Beijing terminaram como deveriam, ou seja, com o Brasil entre os mais fracos. Poderia ser diferente? Sem investimentos em esportes, sem política esportiva de longo prazo, com a esbórnia que é a administração dos grandes clubes e associações esportivas —só por milagre. Ainda bem que temos um ou outro atleta ou equipe cujos méritos próprios nos permitiram sair ao menos com uns caraminguás. Só não entendo o ufanismo, a expectativa de que pudesse ser diferente e, consequentemente, a frustração.
 
Obama patinando?
O improvável parece estar acontecendo, a se crer nas pesquisas publicadas esta semana indicando que o candidato republicano John McCain teria passado em cinco pontos o democrata Barack Obama, que recentemente foi recebido mundo afora como presidente eleito e não como candidato, tamanha a euforia quanto a sua vitória e a improbabilidade de turbulências desse tipo. Assisti a um programa ontem em que se traçava um panorama do impacto do preconceito racial na campanha de Obama; aparentemente, cerca de 20% do eleitorado acima de 40 anos não votaria nele por ser negro. Durma-se com esse barulho, vindo da nação mais poderosa e teoricamente mais avançada do planeta.


Escrito por Kleber Patricio às 16h39
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Treinamento já!
Me lembro de que uma das coisas que me chamaram a atenção em uma viagem ao Uruguai foi o serviço em bares e restaurantes. Não que fossem todos lordes, mas a dignidade com que garçons, bartenders, etc. exercem seu ofício lá não é vista com freqüência aqui —onde oscilamos entre um atendimento irritantemente amador e frequentemente servil ou o serviço esnobe e egocêntrico comum em lugares mais sofisticados.
É lamentável como no Brasil, principalmente em cidades menores, o trabalho de garçom e vendedor é visto como 'bico'. Vivemos um ciclo vicioso nesse segmento, com empregadores pagando pouco por serviços em que justificadamente não enxergam valor e empregados fazendo o mínimo possível até encontrar outro emprego que pague 5% a mais e por aí o ciclo se alimenta.
No caso de vendas, vendedores —principalmente na área de captação— mal-treinados vivem à cata de um fixo —a tal 'ajuda de custo'—, que geralmente é pífio, e complementam a renda com outro bico; ou seja, os patrões fingem que pagam e os vendedores fingem que trabalham. Até conseguir aqueles conseguirem um trabalho que efetivamente enxerguem como promissor.
Não posso crer que isso se deva a preconceito. A análise que mais me parece correta é a de que, na falta de treinamento, o valor de mercado do trabalho cai e a rotatividade se sustenta.
 
Salão Nacional de Humor Sobre Órgãos
A ONG GABRIEL (Grupo de Atuação Brasileiro para Realização de Transplantes Infantis e Estudos do Tubo Neural - www.gabriel.org.br), a Editora Virgo e o Estúdio EMT abriu ontem o 1º Salão Nacional de Humor sobre Doação de Órgãos no Casarão Cultural Pau Preto. Durante o evento estão sendo apresentados os trabalhos selecionados e premiados nas categorias cartum, charge, caricatura e história em quadrinhos.
 
Sedação
O acesso à informação, quantitativamente falando, parece estar anestesiando as pessoas. Trocam-se diariamente trilhões de emails com todo tipo de informação; lê-se sobre tudo em qualquer lugar, mas aparentemente ninguém se posiciona de fato quanto a nada —a menos que encaminhar um email já seja tomada de posição suficiente—, ninguém age conforme uma opinião formada. Todo mundo finge ter opinião sobre tudo —"Odeio a exploração do trabalho praticada na China!", mas continua comprando produtos chineses, frutos dessa exploração, se eles forem mais baratos (e sempre são). A incoerência não é crime, graças, mas a distância entre palavras e atos parece aumentar a cada dia para a média das pessoas.
 
Obscurantismo
A campanha eleitoral deste ano está de bocejar —não fosse o aspecto trágico desse marasmo, já que, sem emissora de TV local, só estão aparecendo os candidatos com maior poder de fogo (leia-se 'dinheiro'). Tudo a pretexto de uma truculência disfarçada de defesa da 'competição de mercado'. Bah.
Por outro lado, o nível médio dos candidatos parece ter melhorado, mas isso também pode ser reflexo do fato de que os menos respaldados financeiramente estão aparecendo menos.


Escrito por Kleber Patricio às 09h11
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Saudações soteropolitanas
Escrevo sob um restolho do entusiasmo com que cheguei de umas pequenas férias em Salvador. Não visitava a cidade há dezenove anos e fiquei bestificado com a beleza e com o astral, talvez porque todas as vezes anteriores estive lá a trabalho. Pela primeira vez pude receber de coração aberto a hospitalidade e a leveza de espírito dos baianos; nunca antes havia podido observar com a atenção e o respeito devidos sua beleza arquitetônica; jamais havia tido tempo suficiente para mergulhar sem pressa no verde claro daquele mar e observar o pôr-do-sol no Porto da Barra, um dos poucos lugares brasileiros onde o sol se põe no mar já que nossa costa é, na maior parte, voltada para o leste. Nem mesmo a agressiva pobreza, tão prolífera em suas vítimas, consegue se sobrepor a tamanha beleza e tanto alto astral (a visão diária de uma mulher em avançada gravidez dormindo sob uma marquise, no meu caminho para a praia, me entristeceu com a minha gente por vários dias depois da volta; afinal, há algo escandalosamente errado com uma sociedade que permite que algo assim se repita por um dia sequer). Chega a ser poético que pessoas submetidas o tempo todo a tanta privação, a tanto sofrimento, possam sequer sorrir entre si.
Me embriaguei com o batuque do Olodum numa das ladeiras do Pelourinho, onde o passado se enfia pelos nossos sentidos como se o tempo fosse um mero detalhe; me deliciei com o acarajé da Dinha —algo puramente semântico, já que a legendária quituteira havia falecido naquela mesma semana—, no Largo de Santana, mesmo que tenha tido que esperar longos 20 minutos na fila (ainda bem que a gente fica imune ao mau humor naquela terra); pensei e repensei minha vida inteira nas caminhadas diárias que fiz do Porto da Barra até a praia de Ondina, na altura do mesmo Othon Palace onde ficava antes de ter amigos lá —e onde encontrei três vezes, nessas coincidências da vida, com o farmacêutico Marcio Mazzi, meu amigo há 20 anos, desde quando chegou em Indaiatuba.
Ironicamente, não tirei uma só foto.
 
Centro de Convenções "Aydil Pinesi Bonachela"
Há coisas que só mesmo com o tempo se pode entender. Nunca havia perdido uma amiga tão próxima e ao mesmo tempo tão célebre, por isso não entendia por quê as pessoas se orgulhavam tanto de ter parentes com nome de rua e, por outro lado, por quê a questão era tratada com tão pouca seriedade na maioria das cidades. Pois não só já estava começando a me perguntar quando iriam ser feitas as devidas (mas nunca suficientes) homenagens à querida Aydil como senti um conforto enorme no peito quando soube que uma obra pública com o pioneirismo e o vulto do novo (e primeiro) centro de convenções da cidade receberia o nome da radialista mais querida e combativa da história da cidade.


Escrito por Kleber Patricio às 11h03
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




A Pequena Imprensa
Conceitualmente, a imprensa localizada nas pequenas cidades parece ser democrática e auto-regulada. Não sei o que se passa nos outros países, mas o fato é que no Brasil há algo de muito errado com ela. Em vez de uma imprensa próxima da população, atuante de maneira imediata e presente nos fatos de interesse da comunidade, praticante de preços de publicidade justos e correspondentes à realidade do mercado, o que se vê é uma miríade de pequenos órgãos, a maioria sem foco, identidade ou proposta editorial, sobrevivendo à custa de press-releases das agências de notícias e assessorias de imprensa, sem trabalho investigativo e sempre atendendo de forma escandalosamente prioritária aos interesses dos anunciantes, disputando a tapa e muitas vezes de forma desleal um mercado saturado e sufocado pelo assédio constante dos departamentos comerciais, ávidos por financiar a continuidade das publicações. O interesse para o leitor, quando há, é incidental. É o preço que se paga pela liberdade, agravado pela falta de critério, responsabilidade e perspectiva de algumas pessoas que, à falta de outras formas de se sustentar, apelam para um jornalismo que, mais que ao dicionário, afronta a memória de gente como Claudio Abramo e outros de semelhante estatura. Isso só vai ser solucionado quando os anunciantes começarem a se pautar menos por preços e condições de pagamento e mais por conteúdo e linha editorial. É inevitável que, com o crescimento acelerado da cidade e com o distanciamento pessoal entre anunciantes e veículos de comunicação, o poder de sedução dos vendedores acabe se curvando a critérios como qualidade e credibilidade.
 
Maio Musical
Mantidos a abrangência e o padrão de qualidade do Maio Musical, só hoje me ocorreu como faz falta um certo ar de celebração que havia à época das primeiras edições, como se a cidade fosse contagiada por um clima de música, algo como a sensação que  tem do astral de Viena todo mundo que conheço que esteve lá. Talvez, dado o crescimento e fragmentação da população da cidade, fosse o momento de se pensar o festival de maneira um pouco mais publicitária, com referências visuais (painéis, oudoors, banners e outras mídias) que, interligadas, talvez enriquecessem o conjunto da obra e inserissem ainda mais o Maio Musical no inconsciente das pessoas.
 
Dia das Mães
Acho uma sacanagem enorme esse negócio de Dia das Mães, Dia dos Pais, dia não sei do quê. A pessoa fica numa sinuca de bico se não tem dinheiro para presentear a mãe nesse dia - isso na melhor das hipóteses, já que pior ainda é ser dolorosamente lembrado anualmente àqueles que não mais as têm a falta que elas fazem, com a obrigatória melancolia de assistir aos que as têem recebendo delas o carinho que tanta falta faz. Melhor não seria se todos tratassem suas mães com todo respeito, dignidade e consideração, presenteando-as sempre que cruzassem com algo que soubessem que as faria feliz e, claro, tendo dinheiro para isso?


Escrito por Kleber Patricio às 12h04
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Exploração infantil póstuma
Não consigo imaginar outro nome para a cobertura indecente que os meios de comunicação fizeram da morte da pequena Isabella, aparentemente atirada pela janela por aquele pai louco e facínora. Agora pouco, ouvindo à distância o noticiário da casa ao lado, que parecia durar horas, ouvi um infeliz de um repórter dizendo que a seguir ouviríamos uma singela homenagem que 'a querida Ana, mãe de Isabella' faria em função da passagem da data do aniversário da filha. Incrível a cara-de-pau. Fez como se fosse realmente íntimo e solidário com o sofrimento da mãe, quando na verdade nunca na vida vi uma exploração tão barata de uma história tão triste e tão reveladora da baixeza que caracteriza a natureza humana. Os sentimentos mais primários e perturbadores da maiorida das pessoas foram manipulados ao extremo por manchetes melodramáticas e sentimentais. Em nenhum momento li ou ouvi uma conversa séria e esclarecedora. O jornalismo no Brasil parece que de vez em quando dá uns bons passos para trás.
 
Sampa
São Paulo simplesmente não dá mais. Estive lá esta semana para almoçar com um grande amigo e, apesar da amenidade do passeio e da sorte de não ter tido que encarar nenhum congestionamento recorde, cheguei em casa no final da tarde completamente exaurido. Só aquele barulho torturante de carros, buzinas e o diabo, para nós que nos habituamos ao canto dos passarinhos, já é de enlouquecer. Fora a estranheza que causa andar pelas ruas em meio a um monte de gente e não conhecer ninguém, ninguém notar ninguém, todo mundo quase totalmente anestesiado. Tudo é comprido, tudo é mão-de-obra, tudo é complicado e tudo, absolutamente tudo, se atrasa. No caminho de volta, Indaiatuba parece que não chega nunca. A sensação de alívio e acolhimento só chega mesmo no cruzamento das rodovias Bandeirantes e Santos Dumont. Aí é só alegria e uma sensação de ter sobrevivido à guerra.
 
Dengue
Éramos mesmo felizes e não sabíamos. Ainda esta semana eu pensava como era bom que Indaiatuba tivesse resolvido o problema da dengue. Era mesmo estranho que, com esse tempo louco, com chuvas fora de hora (neve em Paris na primavera!) e as pessoas tão pouco disciplinadas, estivéssemos ainda virgens da epidemia que assola o país e devasta o Rio de Janeiro. O mais preocupante é que pessoas a gente ensina; o que fazer com o monte de terrenos abandonados que nem se sabe estarem assim? Resta torcer os dedos para que, primeiro, as autoridades façam seu papel e, segundo, a sorte nos acompanhe como vinha acompanhando até agora.


Escrito por Kleber Patricio às 17h32
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




The Queen

Reproduzo aqui um texto que enviei a pedido para o portal Mais Indaiá (www.maisindaia.com.br).

Conheci a Aydil há 20 anos, quando entrei de sócio na escola de línguas que ficava em frente à casa dela. Tinha muito carinho pelo marido dela, o Ciso (Tarcísio era o nome dele), e ele por mim. Acho que de alguma forma esse carinho acabou contagiando a Aydil e estabelecemos uma relação muito terna e sempre divertida.
Você me pede memórias e começarei com aquela que me é mais cara. Falávamos com freqüência ao telefone nos anos 90 e eu costumava brincar com ela ligando do telefone sem fio e, enquanto conversávamos, eu atravessava a rua e tocava a campainha da casa dela. Ela me dizia atarantada que tinha que atender à porta e, quando via que era eu, caindo na gargalhada, gritava "Ah, é você?! Bandido!!" e me dava um tapinha.
No começo da nossa amizade ela dizia sempre, muitas vezes no ar, que eu era 'o homem mais lindo de Indaiatuba', posto em que acabei perdendo a exclusividade com o passar dos anos. O que nunca perdi foi o título de 'Metido!' que ela usava para me provocar em todos os eventos que promovi e que ela honrou com sua presença.
Um dia, minha afilhada Sílvia Bolívar me perguntou que diabos eu havia feito para a Aydil que ela queria ouvir falar no capeta, mas não queria ouvir meu nome. Respondi sinceramente que não sabia e assim ficamos quatro ou cinco anos sem nos falarmos. Uma noite, na casa do nosso amigo comum Gelson Toledo, ela me disse, como se nada tivesse acontecido, "Faz tempo que não faço um almoço pra você, né, Kleber? Vou fazer um logo e vou te chamar." Assim retomamos nossa amizade sem que um jamais tivesse dito ao outro qualquer palavra atravessada, qualquer desaforo. E o fato é que nunca soube, se é que um dia saberei, o motivo da mágoa. Acredito, pela coincidência de períodos, que devia ter algo a ver com o fato de eu ter assumido a Assessoria de Comunicação Social do governo Flávio Tonin, ainda que não me conste que ela tivesse qualquer desapreço específico e incontornável por ele.
Sempre tive por ela um respeito imenso, tanto pela pessoa verdadeira e corajosa que ela sempre foi, quanto pela seqüência de perdas trágicas que ela teve ao longo da vida, começando com o derrame que acometeu o marido pouco tempo depois do casamento, culminando com a morte da filha Andréa e seguida, sem muito intervalo, da perda da irmã Maria Ignês. A dignidade com que ela enfrentou essas perdas, que teriam prostrado de maneira irreversível muita gente, me emocionava. Ela costumava dizer que, com a morte da filha, haviam secado suas lágrimas e ela havia perdido a capacidade de chorar. Não acredito; acredito muito mais que se tratava de uma estratégia inconsciente de sobrevivência - um dos tantos calos que nossa alma vai criando para que consigamos suportar nossas dores e viver apesar delas. Senão, ela não teria a sensibilidade de, vendo-se sem razões para viver, passar a fazê-lo em função dos que mais necessitam. Minha amiga Barbara Fantelli me tocou muito com um questionamento, hoje: "A quem os pobres vão recorrer agora?"
Profissionalmente, era uma pioneira. Me deliciei sempre com os relatos que ela fazia sobre a forma como era o colunismo na época em que ela exercia o ofício de colunista da Tribuna, não sei quanto séculos atrás. "Era completamente diferente. Como imprimir fotos era muito caro, fazíamos verdadeiros relatórios dos eventos, explicando em detalhes como eram as roupas das pessoas, por exemplo." Depois, com seu ingresso no rádio, passou a ser a verdadeira voz do povo, bradando com sua voz indignada contra tudo o que era feito de maneira contrária aos interesses da população, tantas vezes em seu nome. Claro que muitas vezes errou em suas posições, mas jamais as tomou de maneira calculista ou em interesse próprio. Era uma leoa, 'pero sin perder la ternura jamás', ao ponto de me mandar num dos momentos mais dolorosos da minha vida uma caçarola italiana feita como todo carinho por ela, que sabia ser uma das minhas sobremesas favoritas.
Chamava-a de 'The Queen', em alusão ao fato de ela ser a Rainha do nosso rádio. Ela sempre aceitou com orgulho a alcunha. Então, adeus, Alteza. Fico feliz de ter a certeza de que você está feliz agora, ao lado daqueles cuja falta tanto sentiu. Muito obrigado por ter feito parte da minha vida e por ter sido um exemplo tão grande. Parabéns por sua história tão linda.


Escrito por Kleber Patricio às 09h18
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Congestionamento
Sempre me encanto com a forma respeitosa com que os veículos se relacionam com os pedestres em Florianópolis. As faixas de pedestre são efetivamente utilizadas e os motoristas são especialmente atentos aos pedestres mesmo em locais onde elas não existem. Mas em que pesem os encantos da ilha, não é possível acreditar que os motoristas de lá sejam melhores que os de cá, mesmo porque a forte presença turística na cidade transforma qualquer tentativa de rotular seus motoristas conforme um perfil médio. Só me resta crer, então, que a fiscalização lá é mais ostensiva e eficiente.
É hora de Indaiatuba pensar a sério a questão do seu crescimento. O estresse no trânsito já é uma triste realidade por aqui, ainda que seus efeitos sejam imensamente inferiores aos de São Paulo ou mesmo Campinas. O mais preocupante é que, além do número de carros, a situação está se tornando cada vez pior porque as pessoas simplesmente não respeitam regras básicas de trânsito, como manter o carro em um dos lados da pista. As pessoas andam no meio da rua, conversam longamente ao celular, param os carros onde bem entendem. Não entendo por que quase não vemos guardas de trânsito no Brasil. Praticamente todos os países que convivem com problemas de trânsito não podem prescindir de sua ajuda, ainda que em locais e horários determinados.
A sensação de ordem é extremamente importante para se criar uma cultura de civilidade no trânsito. Ou colocamos ordem na casa agora ou começaremos em breve a pagar um alto preço por isso. O uso do cachimbo entorta a boca e é muito mais difícil (e caro) eliminar erros do que ensinar.
 
Dia Internacional da Mulher
Buscava algo pela Internet para reproduzir aqui em homenagem a todas as mulheres e deparei com este poema. Valor literário é sempre passível de discussão, então optei por publicá-lo porque, em primeiro lugar, ele sintetiza de maneira admirável a epopéia que é a vida de toda mulher; em segundo, porque foi escrito por uma mulher, ou seja, tem conhecimento de causa.

Ser Mulher
 
Ser mulher
É trazer nas entranhas a força da vida
É não se entregar nem se dar por vencida
É vencer obstáculos
E ganhar novas conquistas.

Ser mulher
É saber que nasceu já predestinada
A lutar pela vida
A ser luz, ser estrada.
É ter a força do amor
E por ela ser guiada.

Ser mulher
É não ser submissa
É mostrar para o mundo
Que não se intimida.
E com luta, com garra
Construir sua vida.

Ser mulher é ser mãe
Ser filha, ser exemplo
É não se abater com o sofrimento
É estar sempre presente.
SER MULHER ontem, hoje e sempre!

Eleusa Ribeiro da Silva Dias
Vitória da Conquista - BA


Escrito por Kleber Patricio às 08h00
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Pedição
Por alguma razão misteriosa, sinto uma culpa abissal diante do abandono ou a cada vez que fico sabendo que alguém sentiu dificuldades e não pôde contar com qualquer espécie de ajuda ou solidariedade. Graças a isso, não consigo recusar ajuda. Durante um certo tempo, tentei ajudar financeiramente tantas entidades filantrópicas quanto pudesse, mas a culpa aumentou em função daqueles a quem eu não podia por pura limitação financeira. Decidi radicalizar e hoje não ajudo mais nenhuma entidade com dinheiro; quando me pedem ajuda, ofereço meu trabalho com assessoria de imprensa, meus contatos, corro atrás dos amigos para ampliar essa ajuda. Acho inclusive muito melhor, porque meu trabalho pode ajudar as entidades a ganharem mais dinheiro e ajuda do que qualquer R$50 que eu pudesse dar.
Mas é incrível a falta de expediente de algumas entidades. Tem gente que acha que ajudar os outros é se pendurar ao telefone e pedir dinheiro às pessoas que atendem. Existem duas ou três que me ligam bimestralmente, apesar de eu repetir todas as vezes a cantilena acima. O que faço agora? Desligo. Não é possível essa conversa de surdos: a pessoa liga, você oferece uma ajuda muito maior que a solicitada e a pessoa desliga se derretendo em agradecimentos, mas liga de novo no mês seguinte pedindo dinheiro! Isso tira a credibilidade de todo um belo tabalho que pode vir a estar sendo desenvolvido, porque fica a aparência de que as pessoas só querem dinheiro. E ainda fica o mau gosto de descaracterizar a caridade, confundindo-a com esmola.
 
Calçadão do desrespeito
Luto há tempos uma cruzada quixotesca pelo respeito ao direito dos pedestres, já que as calçadas em Indaiatuba parecem terra de ninguém. Como não sou personagem de Cervantes, desanimo. A coisa em vez de melhorar, só piora. Esta semana um restaurante decente, de bom nível, instalou mesas na calçada, deixando para os pedestres algo em torno de 50 cm para passar. Dá impressão de desrespeito, de falta de foco (é restaurante ou choperia?), de falta de carinho para com aqueles que não são clientes. E invade um princípio básico: se as ruas são para os carros e as calçadas para as mesas e cadeiras, as pessoas vão andar aonde??? Civilidade, senhores, civilidade.
 
Políticas hipócritas
É ridículo como algumas pessoas, falando em defender seus direitos, podem invadir os dos outros com a mesma firmeza. Comecei a fumar há 32 anos, numa época em que quem não fumava era quadrado, praticamente um nerd. A propaganda glamourizava, o governo era parceiro, permitindo a publicidade e ganhando rios de dinheiros em impostos. Enquanto isso, as empresas, sem qualquer fiscalização nesse sentido, manipulavam fumos e substâncias químicas de modo a manter essa legião de manobrados como seus escravos perpétuos, com resultados que a Justiça norte-americana não apenas atestou serem devastadores quanto propositais (uma vez que distribuiu indenizações a torto e a direito).
Hoje em dia, descobre-se que o fumo é mortal e que as pessoas precisam parar de fumar. E de uma hora para outra os fumantes passam a ser responsabilizados por fumarem, como se alguém fosse obrigado a ser herói e conseguir eliminar um vício diligentemente alimentado por tantos anos com ajuda de tanta gente. Proíbe-se de fumar aqui e acolá, mas não se indica aos coitados onde se pode, afinal, fumar. Olha-se torto para os fumantes, como se fossem coitadinhos, burros e suicidas. Ah, dá licença e olha o rabo no espelho. Sou fumante e exijo respeito.


Escrito por Kleber Patricio às 09h48
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Feudos
É triste viver em um país onde a consciência da cidadania simplesmente não existe. Me causa nojo assistir a gente incompetente ser alçada a cargos públicos e se enxergarem donas deles —no caso de gente eleita, ainda dá para tentar se conformar, mas os muitíssimo mais numerosos casos dos apaniguados é de amargar. Gente que não cumpre horário, gente que não zela pelo que é de todos —muito pelo contrário, no Brasil 'coisa pública' é sinônimo de 'coisa de ninguém', quando em lugares onde vive gente que se respeita o sinônimo é 'coisa de todos'. Gente capaz de interromper um ofício no exato minuto em que o relógio bate 5 da tarde, porque 'não ganha pra isso' (já vi uma máquina de escrever sendo fechada com o ofício dentro). Gente incapaz de enxergar o interesse público se ele não estiver em algum grau associado a seus próprios interesses.
É até natural que seja assim. Afinal, se uma pessoa conquista uma posição no mercado de trabalho por seus próprios méritos, ostenta sua dignidade em sua capacidade de levar o empregador a atingir os objetivos propostos. No caso de indicações para cargos de confiança (de quem??) ou mesmo no de tantos 'concursos' que se vê por aí, o infeliz sabe que não teria estatura para estar ali; com isso, submete sua dignidade ao sabor daquele que o nomeou (na seqüência, dos próprios interesses) e daí está dado o primeiro passo para uma corrupção de caráter que via de regra deforma a personalidade como um todo. Argh.
Estas pessoas não devem pensar que um dia tudo isso acaba.
 
Cartões corporativos
Na contra-mão da moda, vou defender aqui a instituição dos famigerados cartões corporativos do governo federal. É um assunto que vem sendo tratado com base na antipatia (atual) da mídia para com Lula e o PT (merecida?), não na lucidez com que deveria.
Trata-se de um avanço. É mais transparente e diminui a prática nefasta —ainda em vigor em muito mais larga escala— do uso de cheques, posteriormente justificados com notas mais frias que pé de pingüim. O que tem que fazer é, primeiro, diminuir a quantidade —os cerca de 7 mil existentes são um despautério. É gente demais com dinheiro fácil na mão. Segundo, permitir apenas aos dirigentes maiores dos órgãos (e portanto, mais responsabilizáveis) o acesso a saques em dinheiro. E terceiro, claro, fiscalizar.
O que não pode é jogar na vala uma iniciativa louvável e positiva porque muitos daqueles que deveriam executá-la não estão à altura de serem chamados de homens.


Escrito por Kleber Patricio às 07h32
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Porque escrevo

Uma vez, há quase quinze anos, Erika Hayashi me perguntou se eu não me incomodava com o fato de que muitas vezes o carinho das pessoas não fosse sincero, mas fruto de interesse pelo fato de eu ser colunista. Respondi que preferia acreditar que, havendo ou não essa possibilidade, fosse sincero, mesmo porque não haveria muito o que fazer. Mas confesso que a dúvida nunca foi devidamente resolvida e acho mesmo que talvez nunca venha a ser. Mas é o preço que se paga quando se faz escolhas na vida e eu acho que esse preço nem é tão alto assim.

Em algum grau, todo e qualquer relacionamento é movido por interesse. O desafio é conseguir que o interesse nunca se sobreponha às reais qualidade que possamos ter. Para isso, é preciso se abrir, dar sempre o que se tem de melhor, para que o o outro sinta-se agradecido por, em não tendo sido bitolado, ter acabado conhecendo características positivas ainda superiores aos objetivos que inicialmente possam tê-lo movido. Nada se tem a perder com isso. Ao contrário, cresce-se e, dadas as obrigações da coerência, acaba-se adquirindo, pelo hábito, a prática de coisas edificantes, para usar um termo caro ao nosso alcaide, e que promovem a vida e o progresso, para usar um termo caro ao meu amigo Ige D'Aquino (o 'progresso' é acréscimo meu).

Me sinto privilegiado por ter a oportunidade de compartilhar com aqueles que enxergam algum sentido no que eu escrevo as minhas opiniões mais honestas acerca de todos os assuntos. Se eu puder acrescentar algo à forma de pensar de alguém, já terá valido minha existência. Não me empolga deixar um legado material, que pode ser dividido até um ponto subatômico e na prática desaparecer; prefiro deixar idéias, que estas não morrem. Por isso, tento manter a disciplina de informar, em primeiro lugar, ainda que o assunto não seja do meu interesse particular. Em segundo lugar, não acredito em imparcialidade total; ou melhor, acredito que seja algo muito raro. Por isso, prefiro seguir os conselhos de certa ministra e relaxar e levantar, sim, a bola daqueles que, além de fazer algo minimamente notável, possuem a minha simpatia e concordância. O que me obrigo a me submeter são argumentos, desde que sejam coerentes. Acredito que há sempre três lados numa história: o meu, o do outro e o isento.

Mas voltando ao assunto principal, adoro poder compartilhar minhas idéias e sentimentos, adoro pessoas e a possibilidade de ressaltar suas qualidades e particularidades e acho apaixonante às vezes poder mostrar a pessoas queridas características suas que, ao meu olhar, são seu charme e encanto. E chega de aluguel.



Escrito por Kleber Patricio às 23h55
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Acesso, pero no mucho

Democracia sentimental fede. Mas infelizmente não dá para crescer sem contar com as trombadas, sem abrir o coração para os outros e colher os frutos dos embates entre nossos sentimentos e expectativas e os dos outros. Mesmo assim é ..., well, me faltam palavras, digamos, educadas para descrever.
Abrir o coração é um ato de muita coragem. Significa que você bota, sim, fé no seu taco e, chorando ou não, dando show ou não, rindo ou não, no final acaba dando conta do recado e saindo da história toda uma pessoa um bocadinho melhor. Triste é ver gente bonita, saudável, forte e inteligente vendo a vida simplesmente passar, se encantando com sentimentos e histórias que não são suas por pura falta de coragem. Assistindo à distância a flashes de vidas que poderiam ter sido delas. O que há de se perguntar é uma coisa só: se o preço vale a pena. Porque preço sempre haverá. Incompreensível, para mim, é haver gente que se disponha a pagar o preço da monotonia, da submissão aos fatos cotidianos, e afinal não experimentar o novo, o desconhecido, a surpresa. Mas pagou do mesmo jeito!
Também é um ato de coragem partir para o abraço, reconhecendo as reais expectativas que nos movem. Tudo na vida é motivação e mais uma vez cai-se na questão do preço. Quanto custa para se chegar onde se quer? O quê, afinal, se quer? É incrível a falta de clareza da maioria das pessoas.
Arre, esse teatro está ficando insuportável.



Escrito por Kleber Patricio às 23h55
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Mamie

Ela havia vindo de Santa Barbara d'Oeste, onde seu pai ganhara terras do imperador no período em que se iniciou o processo de profissionalização da agricultura brasileira. Havia sido casada com um engenheiro do governo norte-americano —naquela época, a política externa do governo americano previa uma presença marcante nos países sul-americanos e isso se dava por meio da construção de pontes, hospitais, etc., sendo Edward um dos seus próceres no nosso continente. Ela falava dele de uma forma estranhamente apaixonada; era como se ele não tivesse morrido há tanto tempo.
Nos conhecemos de maneira absolutamente fortuita —nossa faxineira, que era a mesma, nos apresentou. Dizia que ela vivia muito sozinha naquela bela casa na rua Sete de Setembro; toda vez que eu passava por ali a caminho da academia, cumprimentava-a dizendo "Good morning!", que ela respondia sorrindo e com um lento aceno de mão. Um dia, ela pediu a dona Nair que me dissesse que, se um dia eu decidisse dar a ela o prazer de uma visita, ela me receberia para um chá. E assim começou um compromisso que tive semanalmente por vários anos.
Naquela época ela ainda cozinhava, apesar da coluna muito curvada por um bico de papagaio. Me recebia com deliciosos biscuits, um tipo de pão que os americanos consomem com bastante freqüência, muffins, brownies, tortas maravilhosas, geléias inacreditáveis e chá Twinings —de quatro frutas vermelhas.
Falávamos apenas em inglês, já que o português dela, além de hesitante, era bastante ruim. Dr. Provenza me contou que um dia ela chegou no consultório dele e disse que havia arrumado um namorado, que falava inglês com ela e que a levava para passear. Tudo porque algumas poucas vezes peguei o Dodge Dart de um amigo meu (em cujo porta-malas cabia a cadeira de rodas) e a levei para conhecer o shopping, que havia acabado de ser inaugurado, e dar uma olhada nas tantas mudanças por que Indaiatuba tinha passado desde que ela se isolara do convívio com muitas outras pessoas. As pessoas com quem ela tinha mais contato eram sua enfermeira Olga (e a filha dela, Daniele, que moravam com ela) e as sobrinhas, seus parentes vivos mais próximos. Todos os seus amigos haviam falecido; todas as pessoas de sua geração ou das gerações imediatamente posteriores, com quem ela poderia ter alguma empatia ou algo em comum.
Ela tinha já mais de cem anos (apesar de, inacreditavelmente, esconder alguns) e contava histórias maravilhosas de suas andanças pelo mundo acompanhando o marido em suas missões. Havia vivido na Guatemala, no Marrocos e em vários outros lugares igualmente exóticos, trazendo consigo lembranças vívidas de momentos de fato inesquecíveis. Eu, por volta dos 27, me refestelava com essas histórias, que sorvia enquanto pedia mais e mais detalhes e impressões.
Um dia, tive a idéia de promover um encontro dela com a avó de uma amiga, Mary Frances, uma inglesa que hoje tem 107 anos, por enxergar ali uma possibilidade de amizade. Nos reunimos três ou quatro vezes, já que é sempre um problema deslocar alguém com idade tão avançada, mas, estranhamente, não aconteceu a empatia que eu esperava, ainda que elas sem dúvida nutrissem carinho uma pela outra e respeito por suas histórias, igualmente ricas e belas. Tive ali a impressão de numa certa altura da vida, acabamos estabelecendo com nosso passado uma relação estranha, como se o conjunto de nossas experiências formasse uma pessoa, que nos basta como companhia. Afinal, quando todos se vão, elas são o que resta.
Um dia, quando entrei na casa, havia duas malas lindas, de couro, inglesas, na sala. Ela me disse que haviam pertencido ao seu amado Edward e que ela tinha absoluta certeza de que, de onde estivesse, ele ficaria feliz que elas fossem minhas. Emocionado, aceitei.
Não muito tempo depois, ela faleceu. Já não nos víamos há algum tempo, em função da aceleração de uma senilidade que acabou fazendo com que ela não me reconhecesse mais. Pragmatismo, fraqueza ou egoísmo, o fato é que não consegui suportar o sorriso nos olhos dela, vindo do coração, acompanhando a pergunta "Who are you?".
Desde então, essas malas me acompanham em todas as minhas andanças pelo mundo. Viajar é o que mais gosto na vida e cada novo olhar que deito sobre um novo lugar passa, de uma forma ou de outra, pelos olhos dela. Aprendi com ela a observar nos povos a riqueza de cada pessoa, a identificar no conjunto a somatória das características e sentimentos de cada indivíduo. Acho que isso abre as portas para muitas outras formas de ver o mesmo mundo. Me sinto um escolhido por ter tido o privilégio de, dando tão pouco, ter recebido tanto amor e tanto conhecimento de vida.


Escrito por Kleber Patricio às 10h35
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




O laço

Recebi via e-mail como sendo de Mario Quintana, mas nos dias de hoje não se pode garantir. De qualquer forma, a amiga que mandou é muito culta, o estilo é parecido com o dele e a mensagem é linda e verdadeira.

Meu Deus, como é engraçado.
Eu nunca tinha reparado como é curioso um laço. Uma fita dando voltas. Enrosca-se, mas não se embola. Vira, revira, circula e pronto... está dado o laço.
É assim que é o abraço: coração com coração, tudo isso cercado de braço. É assim que é o laço: um abraço no presente, no cabelo, no vestido, em qualquer coisa onde o faço. E quando puxo uma ponta, o que é que acontece? Vai escorregando, devagarzinho, desmancha, desfaz o abraço. Solta o presente, o cabelo fica solto no vestido. E, na fita, que curioso, não faltou nenhum pedaço.

Ah! Então, é assim o amor, a amizade, tudo que é sentimento. Como um pedaço de fita, enrosca, segura um pouquinho, mas pode se desfazer a qualquer hora, deixando livres as duas bandas do laço. Por isso é que se diz: laço afetivo, laço de amizade. E quando alguém briga então se diz: romperam-se os laços. E saem as duas partes, igual meus pedaços de fita, sem perder nenhum pedaço.

Então, o amor e a amizade são isso. Não prendem, não escravizam, não apertam, não sufocam. Porque quando vira nó, já deixou de ser um laço.



Escrito por Kleber Patricio às 12h26
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]


 
Meu perfil
BRASIL, Sudeste, INDAIATUBA, PARQUE SAO LOURENCO, Homem, de 36 a 45 anos, Portuguese, English, Música, Viagens
Histórico
Categorias
  Todas as Categorias
  Citação
  Objeto de Desejo
Outros sites
  Site O Eco
  Hunger Site
  Click Árvore
  Câncer de mama
  KLEBER PATRICIO ONLINE
  Click Ajuda
  Site No mínimo
  Blog Ige D'Aquino
  Blog Marcelo Tas
  Metrô de Moscou - Fotos (clicar nos 'M')
  Cave Canem
Votação
  Dê uma nota para meu blog